O assassinato do líder militante palestino Ahmed Yassin por Israel deve fazer crescer a violência que bloqueia as negociações de paz no Oriente Médio e selar a atuação unilateral israelense no conflito. O ataque mostrou de forma mais evidente até hoje que o plano de paz patrocinado pelos Estados Unidos, denominado “mapa do caminho”, está fadado ao fracasso, por uma combinação de fatores que incluem a oposição militante palestina, a ação israelense para anexar partes do território ocupado e o afastamento dos EUA do assunto durante a campanha presidencial.
O míssil teleguiado que matou Yassin foi a demonstração mais efetiva até agora de como o governo israelense encara o problema: não há parcerias nas negociações de paz e a única opção é eliminar os acusados de orquestrar os ataques suicidas. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro Ariel Sharon pretende “se desligar” do conflito desocupando a Faixa de Gaza e vários assentamentos judaicos de pequeno porte na Cisjordânia. Os maiores, porém, serão incluídos pela barreira que está construindo, invadindo território reivindicado pelos palestinos para o estabelecimento de seu Estado.
Autoridades palestinas e especialistas acreditam, porém, que a política de linha-dura de Sharon contra os militantes e a imposição de soluções com o uso da força podem insuflar mais ataques sangrentos contra Israel. Essa mesma política, afirmam, tirou da Autoridade Palestina e do moderado primeiro-ministro Ahmed Qurie qualquer chance de convencer os militantes a uma trégua para negociar a coexistência com Israel.
Para Israel, o Hamas de Yassin já havia passado do limite quando dois suicidas escaparam da cercada Gaza pela primeira vez no conflito que já dura três anos e provocaram uma explosão no porto de Ashdod, matando dez pessoas.
A primeira reação palestina ao assassinato de Yassin foi a aproximação entre a Fatah, movimento ligado a Yasser Arafat e comprometido com o processo de paz com Israel, e rivais mais radicais como o Hamas, que pregam a destruição do Estado judaico.
Arafat decretou três dias de luto por Yassin, o religioso paralítico que chegou a prender uma vez sob acusação de ameaçar as negociações de paz.
A Autoridade Palestina vem perdendo apoio entre os militantes, que a acusam de corrupção, da dificuldade de comunicação e incapacidade de proteger as vítimas das ofensivas israelenses. O Hamas se destacou estabelecendo uma extensa rede de apoio humanitário e resistindo às ações militares de Israel. A maioria dos palestinos não apóia os militantes, mas acredita que Sharon quer manter um certo grau de violência para evitar o prosseguimento do plano de paz negociado por palestinos moderados, que prevê a devolução por Israel de grandes áreas ocupadas na guerra de 1967.
O plano de desocupação unilateral de Sharon enfrenta forte oposição de nacionalistas que compõem sua coalizão. Essa corrente fica muito satisfeita com ações como o assassinato de Yassin. Confidentes do primeiro-ministro israelense afirmam que ele tem esperança de obter apoio dos EUA para a anexação das áreas da Cisjordânia incluídas na barreira. Aos norte-americanos, resta descobrir detalhes do plano de Sharon para tentar adaptá-lo à intenção do presidente George W. Bush de criar dois Estados na região. Para os palestinos, as intenções de Sharon acabarão tornando a sonhada Palestina inviável - e fazendo da violência militante o único caminho possível.
O autor, Mark Heinrich, é jornalista da Reuters.