09 de julho de 2026
Política

Raul diz que diálogo foi 'desabafo'

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

O secretário municipal de Finanças, Raul Gomes Duarte Neto, comentou, no início da noite de ontem, que o trecho da gravação contendo diálogo entre ele e o vereador João Parreira de Miranda (PSDB), foi resultado de um desabafo. Duarte disse que colocou o cargo à disposição do prefeito e pediu desculpas ao governo. O prefeito Nilson Costa (PTB) se calou, em uma estratégia que indica receio de que seu homem de confiança possa ter falado demais.

Em entrevista coletiva, Duarte não conseguiu explicar porque, nos últimos meses, tem conversado com tanta desenvoltura com um vereador de oposição que agia no levantamento de denúncias contra a própria administração. Ele pediu desculpas ao assessor de gabinete do prefeito, Luiz Freitas (citado no trecho gravado), disse que tem divergências com o colega, mas não guarda nada que o desabone.

Na entrevista, o secretário mostra seu embaraço por ter falado demais a um “amigo” da oposição e tenta proteger Nilson Costa em relação à suposta existência de esquema de propina dentro do governo.

O prefeito Nilson Costa estava no Palácio das Cerejeras no momento em que Raul Duarte concedeu a entrevista, mas não saiu de seu gabinete. O Executivo preferiu um breve comentário por parte do chefe de Gabinete, Antonio Sérgio Marsola: “O prefeito ainda não tomou conhecimento das gravações mas já determinou que o caso seja apurado”.

A seguir, os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - O senhor se sente em condições políticas de permanecer no governo?

Raul Gomes Duarte Neto - As condições políticas de permanecer ou não na administração, isso quem diz é o prefeito Nilson Costa. Meu cargo sempre esteve na mão do prefeito e a hora que ele achar que eu deva deixar a administração eu o farei imediatamente.

Imprensa - Porque o senhor disse na gravação que na prefeitura tem briga de poder?

Raul - Eu não disse que na prefeitura tem briga de poder. O que eu disse é que na prefeitura tem divergências políticas. Porque um acredita que a administração deva ser conduzida por um lado e outras por outro. Uma divergência política foi a que ocasionou todo esse problema no final do ano passado. Eu acreditava que a redução do ISS complicaria a situação financeira do Município e um grupo político acreditava que ia beneficiar.

JC - Mas nos diálogos o vereador fala que não tratou de ISS com o senhor, mas de eventual esquema de propina. Segundo o vereador, o senhor chegou a dar informações sobre isso?

Raul - Em nenhum momento eu conversei com o vereador sobre esquema de propina. Até porque se eu tivesse conhecimento de esquema de propina ou se eu tivesse certeza de que havia algum favorecimento, não estaria mais na prefeitura.

JC - O senhor não conversou com o prefeito, após os contatos com o vereador, da possível existência de esquema?

Raul - É isso que eu quero deixar bem claro. Essa conversa toda que houve com o João Parreira se deu no clube, tomando cerveja. Em nenhum momento eu conversei com o vereador João a respeito desse tal de “carioca”. Ele liga para a Secretaria de Finanças perguntando se tinha algum conhecimento de alguma carioca na prefeitura e eu disse que não. Eu falei que ia averiguar.

JC - Segundo o vereador, o senhor tece comentários sobre o que ele chama de esquema de propina em outras gravações?

Raul - Ele ligou perguntando desse tal de carioca e eu disse que não sabia e não sei. Mas disse que ia averiguar. Seria muito difícil eu afirmar sobre um esquema de propina. Porque eu não conheço o esquema de propina. E se houvesse eu não estaria aqui, porque quem faz o pagamento sou eu.

JC - Mas e se nas fitas não houver nenhuma frase do senhor negando a existência de propina?

Raul - Pode até não haver nenhuma afirmação minha negando denúncia de propina. Pode haver, a administração é muito grande. O que eu estou dizendo é que não tenho conhecimento.

JC - Mas o vereador alega que o senhor indica o setor onde haveria o esquema e quem seria a pessoa participante?

Raul - Não. Na verdade, o vereador me ligou falando de uma determinada empresa. Eu neguei, dizendo que aquela eu tinha certeza que não haveria e que existiria, se ele tivesse desconfiança, coisas piores.

JC - O senhor já deu outras pistas então?

Raul - Eu não dei pistas. Eu disse o seguinte, se vocês acham. Ele ligou dizendo de uma empresa e eu disse que tinha certeza que naquela não há nada irregular. E que se eles acreditam que nesta administração tem alguma coisa errada, que procurassem de outro lado, porque ali eles não achariam nada.

JC - Mas pelas informações que o vereador a respeito, o senhor vai ter que pedir desculpas não só para o Luiz Freitas, mas também para o chefe de Gabinete e outros?

Raul - Se eu falei alguma coisa que não devo, eu peço desculpas a quem quer que seja. Falei num desabafo. Falei acreditando que a pessoa que estava comigo estava interessada em ouvir um desabafo, um momento de solidão minha no poder. O poder é solitário e o vereador usou isso. Posso ter feito desabafo sim.

JC - Mas o senhor desabafa sobre fatos irreais?

Raul - Na verdade eu desabafei. Falei de algumas coisas que o vereador mesmo já tinha comentado. Ele já tinha comentado as desconfianças deles. Eu estava em um momento de dificuldades e acabei falando pra ele várias coisas.

JC - O senhor não consultou o prefeito sobre essas desconfianças de um vereador de oposição?

Raul - Pra levar isso adiante eu tenho que ter uma prova concreta. Eu falei sobre suposições e desconfianças. Não comentei com o prefeito porque não achei relevante.

JC - Mas o vereador cita que na fita o senhor afirma ter comentado com o prefeito?

Raul - Algumas coisas eu devo ter comentado com o prefeito. Mas não casos específicos. Houve uma preparação de tudo isso. O vereador ligava para mim, falava algumas coisas, me deixava inseguro e eu comentava. Isso ele não vai apresentar. Ele vai apresentar o que ele tiver interesse. Ligava, falava na sauna, no clube fazendo ginástica. Eu me sinto decepcionado com o vereador, porque falei sobre suposições.

JC - Mas o vereador falou abertamente para o senhor sobre o esquema que estava ele pesquisando?

Raul - É verdade e isso eu já falei. Ele ligou, falou isso, perguntou da existência do carioca e falou que tinha essa denúncia. Eu fui verificar o pagamento dessa empresa, que foi dentro da ordem cronológica.

JC - Mas o vereador diz que o senhor deu as indicações sobre qual seria o caminho para a denúncia?

Raul - Toda vez que tem uma denúncia, cabe checar. Eu não encontrei nenhum carioca. Perguntei primeiro à minha equipe se alguém veio interceder por algum pagamento e eles disseram que não. A pressão para pagar acontece. Mas na Secretaria de Finanças temos o critério de obedecer a ordem cronológica.

JC - O senhor descarta a existência de cobrança de propina nesta gestão?

Raul - Eu não tenho suspeito. Eu estava induzido por uma situação, eu não sabia da existência desse carioca. Quem falou isso pra mim foi o João Parreira. Fui procurar, não encontrei.

JC - O estranho é o senhor não perguntar para o prefeito, mesmo ao pé do ouvido?

Raul - Mas eu não sei se não cheguei a comentar com o prefeito sobre essa história. Qualquer um de vocês pode me ligar dizendo que tem uma denúncia. Eu não posso descartar, tenho que verificar. Averiguei. Eu não me lembro se cheguei a falar ou não com o prefeito desse caso. Posso até ter falado com o prefeito, não sei se falei.