08 de julho de 2026
Polícia

Furtos lideram violência em escolas

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

Um levantamento da Polícia Militar (PM) de Bauru aponta que, nos últimos 11 meses, os furtos e depredações foram responsáveis por 33,9% das 372 ocorrências registradas em escolas do município. A violência em estabelecimentos de ensino voltou a ganhar destaque na última sexta-feira, quando o estudante Carlos César Barbosa Moreira, 18 anos, foi morto com um tiro no peito em frente à escola estadual Carlos Chagas, na Vila São Paulo.

Segundo o comandante da 3ª Companhia da PM, capitão Flávio Jun Kitazume, foram 68 furtos e 58 depredações desde abril do ano passado. As lesões corporais aparecem em terceiro lugar, com 38 registros. Os números levam em conta a soma das ocorrências verificadas em escolas estaduais, municipais e particulares.

Ele explica que a maior parte dos furtos tem como vítima o patrimônio escolar. “São objetos de pequeno valor, como torneiras e lâmpadas. Ocorrências contra alunos são mais raras”, relata.

O capitão afirma que não há como detectar quais escolas apresentam maior índice de criminalidade. “Cada uma tem uma característica própria, em razão do local onde está localizada, do perfil do aluno e do tipo de prédio”, argumenta.

Ele lembra, ainda, que periferia não é sinônimo de violência quando se trata de estabelecimentos de ensino. “Na escola Ernesto Monte, por exemplo, que fica na região central, o Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) Centro-Sul pediu ajuda à polícia porque estava havendo problemas entre grupos de alunos rivais que se encontravam na porta do prédio”, comenta.

Efetivo

Kitazume diz que a ronda escolar conta, em Bauru, com nove viaturas e cerca de 50 policiais. “Eles fazem contato com a direção da escola para detectar os problemas e determinar o tipo de atuação que irão ter”, explica.

Ele afirma que o esquema adotado atualmente, com as viaturas percorrendo os estabelecimentos de ensino, será mantido. “Não podemos direcionar um efetivo exclusivo para as escolas, porque temos mais de 40 delas em Bauru. Se eu colocar um policial em cada porta, terei um batalhão escolar, o que não é possível”, argumenta.

Para o capitão, as ocorrências em escolas precisam ser combatidas através de trabalhos de prevenção, como os programas comunitários desenvolvidos pela PM. “É um serviço preventivo para evitar que os problemas aconteçam”, declara.

Ele cita como exemplo o Programa Jovens Construindo a Cidadania (JCC) realizado pela PM na escola Ayrton Busch, no Parque Jaraguá, que segundo ele, tem registrado bons resultados. “O policial tem levado noções de civismo, direito e higiene e isso tem gerado, entre os próprios alunos, o conceito de que eles são responsáveis pela segurança. Com isso, conseguimos diminuir a apreensão que existia dentro do grupo”, diz.

Kitazume acredita, ainda, que fatos como o homicídio ocorrido na sexta-feira podem ter relação com a falta de opções de equipamentos públicos para lazer, cultura e esporte em muitos bairros. “Na região da Vila São Paulo, Pousada da Esperança ou Núcleo Gasparini, as escolas estão se transformando em atrativos e locais de concentração para os jovens”, declara.

O estudante morto em frente à escola Carlos Chagas estava reunido com vários colegas no momento do crime. Uma segunda vítima foi ferida na nádega. A polícia ainda procura o autor dos disparos, que teria agido por causa de uma namorada.

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Participação

Para a nova dirigente regional de Ensino de Bauru, Vera Nilce Ludke Jarussi, o fim da violência nas escolas só será possível quando houver uma participação efetiva da comunidade. “Ela precisa estar atenta a tudo o que está acontecendo. Vamos prestar mais atenção aos amigos dos nossos filhos”, sugere.

Ela acredita que o Programa Escola da Família, desenvolvido pelo governo estadual desde o segundo semestre do ano passado com o objetivo de abrir as escolas à comunidade durante os finais de semana, é um passo importante para que isso ocorra. “Em algumas unidades, temos atividades dedicadas à orientação dos pais, em que se fala sobre drogas e namoro na adolescência”, comenta.

O presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb), Guilherme Leite Vianello, atribui a violência escolar à presença de traficantes nas imediações dos estabelecimentos de ensino. “As diretorias dos grêmios estudantis têm medo de agir com força dentro das escolas justamente por causa da falta de segurança e da presença de gangues”, opina.

O estudante culpa o Estado por essa situação. “O Estado deveria garantir segurança e ensino com qualidade, mas não está criando políticas públicas estudantis. O jovem da periferia é um alvo fácil nas mãos dos traficantes, pois a maioria é desempregada ou tem problemas em casa”, argumenta.

Segundo ele, a entidade está elaborando um documento, com reivindicações nas áreas de segurança, alimentação e transporte, para ser entregue aos candidatos a prefeito de Bauru e ao governo estadual. “Estamos indo às escolas e discutindo as propostas com os estudantes”, diz.

A reportagem também tentou localizar a presidente do Sindicato dos Especialistas da Educação do Magistério (Udemo), Maria José de Oliveira Faustini, mas ela estava viajando e não foi encontrada para falar sobre o assunto.