Não se precisa repetir o que já se habituou a dizer em opiniões genéricas nos círculos das pessoas: tudo mudou na sociedade, nas atividades e inclusive em tantas outras esferas. E como tudo ficou para trás, nada sendo conservado como vinha sendo, também acabaram se modificando os costumes familiares, dentre os quais a antiga acessibilidade entre pais e filhos, a qual já não é comum porque uns e outros seres viventes nem sempre reservam espaço suficiente para se encontrarem visando “papos” descontraídos como os que outrora reservavam, principalmente porque rotineiramente se agasalhavam sob os seus confortáveis tetos.
Era assim e, então, conversavam, contavam “causos”, entoavam modinhas da época, riam das suas “piadas” e trocavam idéias e assuntos. Hoje, pais e filhos pouco param em casa para conversar. E há filhos que, tristonhos, frustrados, desabafam: “Papai, por que você mudou tanto? Deixe os clubes e os barzinhos. Deixe o trabalho mais cedo. Abandone um pouco os compromissos sociais. Quero contar-lhe tudo o que me aconteceu hoje na escola ou na faculdade. Preciso brincar com você, abraçá-lo, beijá-lo. Desejo abrir-lhe o coração. Não fique com raiva de mim”.
Se há filhos que param em casa, acariciando os genitores, há também os que não o fazem, homiziando-se em boates, clubes e “pizzarias” e enveredando para festas e namoros que se prolongam noite adentro. Conseqüentemente, quase não têm oportunidade de despertar o carinho e os sentimentos do pai e implorar-lhe em lágrimas: “Papai, posso falar com você?”. como o faziam quando achavam que o mundo não mudaria, seria sempre o mesmo, nada fazendo desigualar-se e afastar-se pais e filhos, os quais seriam eternamente uníssinos, concordes em todos os sentidos, para usufruto de perene fraternidade, quebrando o silêncio que os mantém solitários e mudos.
Como atropelar-se a sociedade, tirando-a dos caminhos íngremes, ingratos e insólitos que a impulsionam rumo à deseducação ao invés de enviá-la nos sentidos realmente educativos? É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalista do Estado.
“Mesmo entre enormes escombros pode esconder-se uma jóia que se perdeu. É preciso apenas descobri-la”. Schneider.