08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre o trote


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A respeito da iniciativa da Mesa da Câmara Municipal de Botucatu visando proibir o trote nas ruas daquela cidade, cabe lembrar um estudo do professor Antonio Zuin, da UFSCar, que caracteriza o trote como uma “integração” sadomasoquista, pois os próprios calouros que são favoráveis ao trote “gostam” de ser humilhados porque, no ano seguinte, desforrarão humilhando seus semelhantes. Também coloca que uma sociedade violenta reconhece como seus integrantes aqueles que forem violentos, num processo em que identidades vão assim, “naturalmente”, sendo constituídas. Além disso, o trote pelas ruas inscreve-se na lógica da mercadoria, que só se valoriza ao aparecer e esses jovens calouros, coisificados, transformam o justo orgulho do ingresso ao ensino superior numa reles forma de causar sensação, onde esse seu aparecer é o decaimento do sentir ao epidérmico impressionar. Uma das razões da escola ser uma instituição socialmente valorizada é sua promessa de formar pessoas que se inscrevam nos marcos de um processo civilizatório que leve o homem à condição de indivíduo emancipado. Mas isso não é automático, haja vista que o trote é considerado por muitos como uma brincadeira, assim como aqueles jovens universitários “bem” instruídos que assassinaram em Brasília o índio pataxó Galdino dos Santos derramando álcool em seu corpo e ateando-lhe fogo, fugiram em seguida e depois disseram que foi uma brincadeira. O processo escolar, para cumprir sua promessa, deve estar sob constante reflexão e se algumas autoridades universitárias andam fazendo vistas grossas ao trote, ou seja, fugindo de exercer uma responsabilidade que é sua, nada mais justo que o Poder Legislativo intervenha para repor a situação em termos que estejam em acordo com um avanço civilizador.

Geraldo A. Bérgamo - RG 5.538.451, professor da Unesp/Bauru