A maioria dos pescadores já experimentou ou presenciou um acidente com ferrões e espúculas que causam dores terríveis. Normalmente, essas situações são acompanhadas de técnicas nada avançadas, baseadas apenas na sabedoria popular o que, quase sempre, não são suficientes para confortar a vítima.
Os acidentes mais comuns ocorrem com as espécies de couro, o mandi juba ou amarelo é um dos responsáveis por grande parte das ocorrências em água doce. Mas não só os peixes que possuem ferrões são perigosos.
O pescador, profissional ou amador, deve estar atento aos riscos de várias outras espécies. Apesar de parecerem inofencíveis, corvinas, pacus e até mesmo tilápias e tucunarés são espécies que podem machucar os menos avisados.
O professor doutor da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista (Unesp) e médico colaborador do Hospital, Vital Brazil (Instituto Butantan), Vidal Haddad Júnior, atua diretamente na pesquisa de acidentes provocados por peixes de água doce e salgada.
Como resultado de suas pesquisas, Haddad Júnior publicou o Atlas de Animais Aquáticos Perigosos do Brasil, pela editora Roca, onde apresenta uma série de acidentes, suas conseqüências e tratamentos.
Haddad Júnior atua também na orientação de pescadores e conseguiu, a partir do acesso a informações, reduzir consideravelmente o número de acidentes com mandis na região do rio Tietê, entre Salesópolis e Itapura. “Havia muitas ocorrências com ferrões de mandi nas colônias de pescadores, que foi resolvido com uma medida bastante simples. Eles tinham o hábito de retirar o ferrão do peixe e jogar na beira do rio e acabavam pisando e se machucando.”
Haddad Júnior explica que isso ocorre porque o veneno que fica no muco se mantém. “O veneno é termolábil (substância que se decompõe no aquecimento), porém dependendo da temperatura, se mantém por mais algum tempo. É quando ocorre o acidente”, lembra o pesquisador.
O problema foi minimizado com uma atitude simples: cortar os ferrões e jogar em uma latinha separada. O pescador profissional aprendeu a não deixar os resíduos na margem ou mesmo na embarcação.
Os pescadores esportivos também são vítimas das ações dos ferrões, venenosos ou não, e espículas nas nadadeiras. Normalmente, o amador se fere ao manusear de forma errada o peixe, sem saber dos riscos que corre. “Um acidente com ferrão de mandi, por exemplo, dói intensamente por cerca de 12 horas. Já a dor de arraia é dez vezes maior”, complementa.
Sempre alerta
Haddad Júnior comenta que é importante estar atento ao manipular qualquer peixe. “É necessário considerar que todo peixe possui saliências, nadadeiras, que podem causar um ferimento. O animal está em um ambiente aquático, que não é o do homem, e traz bactérias que podem causar infecções.”
Tucunarés e tilápias, por exemplo, possuem espículas na nadadeira dorsal que provocam ferimentos com infecção. “Já vi micose profunda causada por um acidente com tilápia”, lembra o pesquisador. Até mesmo corvinas e pacus, que não têm ferrão, são causadores de acidentes com mordidas, o que, aparentemente poderia ser um “privilégio” apenas das temíveis piranhas.
Cultura popular e socorros
Em pescaria é possível ouvir muitas soluções criativas para dar fim à dor causada pelo acidente com ferrões. Alguns dizem que para ferrão de mandi é preciso passar o olho do animal na ferida. Outros comentam que passar uma solução de álcool com escorpião (não faça isso em casa!) faz a dor acabar e existem aqueles que crêem na urina como a “salvadora da pátria”.
Haddad Júnior comenta os ditos e dá o recado. “Nenhuma das sugestões são corretas, porém a que mais se aproximaria seria a urina, mas somente por causa da temperatura.” Ele explica: “Em caso de acidentes, a principal medida para aliviar a dor é colocar a área afetada em água quente (50ºC) por um período de 30 a 90 minutos. É uma forma de cessar a ação do veneno, que é termolábil”, ensina.
Essa medida terapêutica é fundamental para aliviar a dor e permitir que a vítima seja conduzida a uma unidade hospitalar. Onde é possível fazer a extração de ferrões ou fragmentos, lavagem dos ferimentos entre outras ações emergenciais.
Saiba mais no site do professor Vidal Haddad Júnior www.dangerousaquaticanimals.com.br