“Como todos os anos, nossa pescaria de março de 2003 estava combinada com meus companheiros João Quintana, Paulo, Sidnei, Dirceu, Teru, Fábio Baraldi e eu, Gerson.
Com destino a Presidente Epitácio, no dia anterior à saída, estávamos ansiosos arrumando as tralhas, tomando as últimas providências para não esquecermos absolutamente nada. Porém, algumas horas antes da partida, um fato inesperado com um de nossos companheiros, o Fábio Baraldi, o impediu de ir. Revoltado, chateado, aborrecido e quase em estado depressivo por ter de perder essa tão esperada pescaria, nos ligou quando estávamos próximos a Presidente Prudente. E ainda extremamente chateado, brincando jogou-nos algumas ‘pragas’. Dizendo que: Primeira, uma das caminhonetes que estávamos iria quebrar; segunda, que choveria; terceira, que uma piranha morderia o dedo de alguém; quarta, que entraria uma garatéia na mão de um de nós; e quinta, que morreriam nossas iscas.
Pois é, amigos leitores, não desejo praga de amigo pescador a ninguém. O inexplicável aconteceu. Quando faltavam mais ou menos 50 km para chegarmos ao nosso destino, o diferencial da caminhonete quebrou. Até conseguir um mecânico na cidade mais próxima e consertar perdemos um dia todo.
Ao chegar em Presidente Epitácio, enquanto arrumávamos o acampamento, notamos que de dois mil lambaris vivos aproximadamente 1500 haviam morrido em conseqüência da perda de tempo com a caminhonete.
Já no terceiro dia de pescaria, o dia amanheceu chuvoso e ventava muito, mais um dia perdido. No dia seguinte, saímos de barco para pescar tucunarés sem sucesso, apenas alguns exemplares médios. E mais uma vez lembramos do Fábio Baraldi, pois nosso amigo descuidado João Quintana, ao manusear a isca artificial, deixou que a garatéia entrasse em sua mão e com muito cuidado conseguimos retirá-la puxando com o alicate.
Voltamos ao acampamento e João cuidou do ferimento fazendo curativo.
Depois de tantos acontecimentos inesperados, estávamos resolvendo se viríamos embora ou ficaríamos mais um dia. Resolvido, fomos tentar mais um dia. Ao entardecer, João Quintana fisgou uma piranha, quando foi devolvê-la ao rio, para nossa surpresa, o peixe mordeu seu dedo ferindo-o seriamente ao ponto de voltarmos e rapidamente levá-lo ao hospital de Presidente Epitácio.
Enfim, fim de pescaria nada proveitosa e desastrada por causa de um pescador inconformado por não poder ir, que numa brincadeira fez o inexplicável acontecer. Conclusão: nunca deixe um amigo pescador para trás.”
Gersinho Tucunaré é pescador e contador de histórias.