07 de julho de 2026
Auto Mercado

Motor retificado ainda é 'tabu'

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

“Xiiii, é retificado? Então não me interessa!”. Se você acha que tal pensamento é incomum entre os donos de automóveis no País está enganado. Muitos torcem o nariz ou fazem “beicinho” quando são informados que o motor de um veículo já precisou passar por profundos reparos mecânicos conhecidos como retíficas. Um preconceito facilmente desmistificado na prática.

Basicamente, o termo retificar é utilizado para retratar o processo de restauração de peças fundamentais para o funcionamento de qualquer propulsor, como o virabrequim, pistões, bielas, cilindros e cabeçotes, que se desgastam conforme a quilometragem dos veículos vai avançando.

E é justamente neste ponto que reside a origem dos preconceitos contra os motores revisados. Como os problemas que demandam retífica costumam ocorrer somente após milhares de quilômetros percorridos, os carros “vítimas” destes danos acabam ficando com a imagem de muito “rodados”.

Apesar disso, poucos se atentam para o fato de que, após passarem pela retificação, os motores tornam-se novos outra vez. “É o princípio básico deste tipo de reparo, ou seja, fazer o propulsor voltar a funcionar novamente com a mesma eficiência”, ressalta o instrutor automotivo Alison Flamino de Aguiar, da unidade bauruense do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Ele acrescenta que não há motivos para ter desconfiança dos motores retificados. “Desde que o serviço executado tenha sido de boa qualidade, veículos equipados com eles poderão rodar tranqüilamente por quilometragens enormes. Desta forma, é fundamental que o reparo seja feito por alguém de sua inteira confiança”, destaca Alison.

Outra prova de que tais motores não merecem a má fama é a vendedora autônoma bauruense Greis Kellen Faqueti, que retificou o propulsor de seu automóvel há mais de um ano. “Ficou ótimo e voltei a andar normalmente. Não vejo motivos para ter preconceitos, principalmente porque não teria condições financeiras de comprar um veículo mais novo. É um investimento de enorme custo benefício”, considera.

Greis não exagera quando sustenta que a retífica de um motor é um investimento. Isso porque os valores para se executá-las costumam ser “salgados” para o bolso. Segundo o instrutor do Senai, em média, os consertos variam entre R$ 1 mil a R$ 3 mil, enquanto um propulsor novo não sai por menos de R$ 4 mil.

“A diferença se explica pelo valor do veículo e a facilidade em se encontrar as peças”, frisa Alison.

Ele acrescenta, ainda, que quando um motor atinge o ponto de necessitar uma retífica não há muitas alternativas para o proprietário do automóvel. “Ou ele opta por fazê-la ou aceita vender o veículo por um preço inferior ao de mercado”, pondera o técnico do Senai.

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Sintomas

Mas como é possível identificar que o motor necessita ser retificado? Neste caso, Alison ensina que os automóveis apresentam alguns sintomas característicos, como perda de desempenho ou baixo rendimento, consumo excessivo de óleo lubrificante entre os intervalos de troca recomendados e, principalmente, ruídos metálicos no momento da partida ou durante retomadas de velocidade.

No entanto, Alison enfatiza que tais defeitos, especialmente os barulhos metálicos, nem sempre são possíveis de serem diagnosticados só “de ouvido”. “Nestas situações só abrindo o motor para descobrir a origem do dano”, destaca.

Já o consumo excessivo de óleo é facilmente perceptível através de dois procedimentos. Um deles é checar visualmente se, ao rodar, o veículo não solta fumaça de coloração azulada pelo escapamento. “Também é possível constatar verificando a presença de óleo na saída do cano de escape”, orienta.

Mas, Alison esclarece que a emissão de gases pelo escapamento pode ser ilusório. Isso porque, conforme o instrutor, só é possível estabelecer com precisão problemas originários desta natureza com o motor aquecido. “Tentar descobri-los com ele frio fatalmente se chegará a um diagnóstico impreciso”, frisa.

Por isso, antes de observar a saída do escapamento, o ideal é rodar até aquecer o motor na temperatura ideal de funcionamento, em torno dos 90º Celsius. Só depois é que se deve checar a coloração da fumaça, normalmente em três colorações: preta indica consumo excessivo de combustível; branca a eliminação de vapores de água; e azulada o gasto exagerado de óleo lubrificante.

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Manutenção

O destino é implacável com os motores. Independentemente da marca ou modelo do veículo, todos precisarão ser retificados. Entretanto, alguns cuidados com a manutenção do automóvel colabora para que a vida útil do motor não seja abreviada e, conseqüentemente, a necessidade de revisão do propulsor não chegue tão cedo.

Abastecer com um combustível de boa qualidade, respeitar os intervalos de troca recomendados para o óleo lubrificante e de seu filtro correspondente e checar semanalmente o sistema de arrefecimento (refrigeração) são os principais deles. “Só estes procedimentos já garantem durabilidade impressionante ao motor”, destaca o instrutor automotivo Alison Flamino de Aguiar, do Senai/Bauru.

Além disso, também é preciso tomar cuidados especiais com o propulsor após a execução de uma retífica. Alison explica que o motor precisa de um tempo para ser “amaciado”, ou seja, que as novas peças se assentem perfeitamente. “Enquanto isso não ocorre, é importante respeitar os limites de rotações nas mudanças de marcha e diminuir os períodos de troca do óleo para cada 1.000 quilômetros”, diz.

Alison conclui que, sem este procedimento, todo o trabalho realizado para retificar o motor pode ir por “água abaixo”. “Os componentes podem quebrar”, alerta o instrutor.