09 de julho de 2026
Bairros

Saída de pediatras desfalca PSs em 15%

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

A novela sobre a ausência de pediatras nos pronto-socorros (PSs) de Bauru ganha episódios mais quentes: desde o início do ano, sete profissionais dos 47 médicos concursados para atender crianças doentes pediram exoneração. O desfalque de 15% é um prenúncio de cenas dramáticas, já que outros três também devem pedir desligamento da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).

Em contrapartida, na linha “vale a pena ver de novo”, os concursos da prefeitura não têm atraído candidatos nem para repor os novos ausentes, quanto mais para contratar o número ideal de profissionais no atendimento infantil, apontado como outros 15.

“Está para sair um novo edital de concurso e contrataremos o quanto for possível. Mas naquele realizado em dezembro, três médicos concorreram. Todos passaram, só dois assumiram e um deles já está querendo sair. Fizemos o possível para mantê-lo”, informa o diretor do Departamento de Urgência e Emergência da SMS, João Sérgio Carneiro.

De acordo com ele, as exonerações pioram ainda mais as condições de trabalho daqueles que permanecem no serviço público, já sobrecarregados.

“O trabalho é estafante, alguns médicos reclamam que não conseguem nem tomar um copo d’água. Os pediatras acabam migrando para outros (trabalhos) menos estressantes, em ambientes mais calmos e mais rentáveis”, explica.

Pediatras que trabalham 24 horas semanais nos prontos-socorros ganham mensalmente cerca de R$ 2.300,00 de salário bruto. Já os que exercem a profissão por 42 horas semanais e com plantão noturno recebem aproximada R$ 3.500,00.

“A faixa salarial é baixa. Tirando os descontos, quem trabalha 24 horas (por semana) recebe cerca de R$ 1.800,00 de pagamento líquido. Talvez fosse o caso de criar um novo benefício ou ampliar o condicional de adversidade”, sugere o diretor do departamento. Os profissionais que trabalham nos quatro prontos-socorros têm direito a um adicional de 125% do salário.

“Já está complicado e deve ficar ainda mais. Para garantir rodízio (de médicos) no final de semana, alguns PSs ficam desfalcados durante a semana. A prioridade é ter pediatra no Pronto-Atendimento Infantil (PAI), que atende casos urgentes de Bauru e região. Quando é possível, mandamos (pediatras) para lá (para os bairros)”, diz Carneiro.

Ele foi procurado pelo Conselho Municipal da Saúde, que tem cobrado providências da administração pública e decidiu adotar uma nova sistemática de comunicação com a SMS. “A gente não está mais aceitando o discurso da falta de dinheiro e de que não dá para contratar. Agora queremos tudo por escrito. Na quarta-feira retomaremos o assunto (em reunião)”, anuncia a coordenadora do órgão, Vera Porto.

Ela não descarta a possibilidade da entidade levar o problema ao Ministério Público, assim como vez o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserm). A iniciativa pretende evitar que o atendimento infantil seja ainda mais prejudicado. Ontem à tarde, por exemplo, faltaram pediatras nos prontos-socorros da Vila Ipiranga e do Núcleo Mary Dota.

“É um absurdo. Agora tenho de esperar condução para levar meu filho ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI). Depois terei de esperar outra condução (para voltar). É uma vergonha”, lamenta Luciana Maria Ortega Moraes. Ela esteve no PS do Ipiranga ontem à tarde para levar seu filho de dois anos. Com chiado no peito, Davi teve apenas a febre medida no Ipiranga.

Morosidade também enfrentaram as crianças encaminhadas ao PS do Bela Vista. Embora os médicos estivessem de plantão, o alto número de atendimento exigiu paciência dos pais.

“Cheguei às 11h e faz uma hora que meu filho entrou no soro. Ele não parava de vomitar e estava com dor de cabeça”, conta Izaura de Oliveira, às 16h. Ela foi do PS Parque Jaraguá ao Bela Vista acompanhada também da filha Mikaela.

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Investigação

A Promotoria da Infância e Juventude instaurou inquérito há 15 dias para apurar se procedem as denúncias do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserm), que acusa o Poder Executivo municipal de omissão em relação à prestação de serviços no atendimento à saúde. Conforme o JC publicou, o sindicato protocolou no Ministério Público (MP) um documento alertando para a falta de profissionais remédios, estrutura física, medicamentos e equipamentos de urgência nos prontos-socorros da cidade.

“No final do ano tivemos uma diminuição de medicamentos porque algumas empresas não entregaram. Para regularizar a situação tivemos que passar por muita burocracia, mas não faltou medicamento. O que procede é a falta de profissionais. Expliquei isso para o promotor”, informa o diretor do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal da Saúde, João Sérgio Carneiro.

De acordo com ele, a escassez de médicos tem até provocado animosidade entre os pediatras, que estão se revezando para trabalhar nos finais de semana. Se a situação não for revertida e continuar prejudicando pacientes infantis, o promotor da Vara da Infância e Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira, pode impetrar uma ação civil pública contra a administração municipal.

Mas se a SMS surpreender e conseguir completar o quadro de funcionários e a outras denúncias carecerem de confirmação, as queixas da entidade sindical serão arquivadas.