Para a professora bauruense Sônia Maria Mozer, o golpe e a ditadura militar criaram décadas perdidas para o Brasil que alimentaram uma série de conseqüências negativas para o País. Ela defende que, além do inchaço do Poder Executivo, a mais grave delas foi que o período “minou” a formação de classes políticas com vozes democráticas formadas, principalmente, na política estudantil, em sindicatos e clubes operários.
“A geração que assumiu a política após a queda da ditadura não aprendeu a democracia nas escolas, sindicatos e clubes operários, pois foi impedida de estudar história, geografia e sociologia de maneira crítica porque tais disciplinas foram retiradas das grades curriculares”, ressalta Sônia.
Em termos econômicos, a docente pondera que não há como negar os avanços registrados durante o período militar, mas faz ressalvas. “Houve crescimento mas não desenvolvimento, pois o mesmo não foi estendido à maioria da população, que se reflete na ausência de empregos, habitações, escolaridade e assistência médica”, afirma.
Dívida externa
Outra herança da ditadura lembrada por Sônia foi o aumento da dívida externa, que na época do golpe atingia cerca de US$ 3 bilhões. “Quando os militares saíram, a cifra ultrapassava os US$ 100 bilhões. Por isso, cada brasileiro já nasce com uma dívida que não fez”, frisa.
A exemplo do memorialista Antônio Pedroso Júnior, Sônia também não crê na passividade do povo brasileiro como uma característica herdada do golpe de 1964. “A nação nunca aceitou a ditadura. Essa idéia foi criada por uma elite que gostaria que as gerações futuras sempre pensassem isso para servir a determinados interesses”, teoriza.
Sônia entende também que o primeiro passo para o Brasil livrar-se de tais resquícios é não esquecê-los. “Se isso ocorrer estaremos condenados a repetir a história”, adverte a docente.
Por isso, ela sustenta que tal comportamento é particularmente importante em períodos de intensificação de crises nacionais das mais variadas naturezas. “Nestas situações, é comum surgirem salvadores da pátria ou soluções miraculosas, que constituem-se em bons momentos à ditadura. Não digo que corremos este perigo, mas espero que estejamos vacinados. E uma forma de conseguirmos isso é não esquecê-la.”