25 de maio de 2026
Articulistas

De volta à velha Europa


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“Resulta incontestável que a derrota do Partido Popular (PP) nas eleições espanholas se deve à capitulação do eleitorado diante do terrorismo”. Esse é o diagnóstico simplista de alguns observadores, sobretudo nos Estados Unidos. Serve de consolo para Aznar e Rajoy, mas não faz nenhum favor aos interesses norte-americanos. Em uma era dominada pelas declarações via televisão de uma única linha, editoriais maiúsculos, encontros apressados ao vôo, ninguém tem tempo de explorar a notícia mais a fundo. Mas deve-se tentar.

Há um fato inquestionável: antes da matança de Madri, o PP estava em vantagem sobre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) nas pesquisas, mas não chegava à maioria absoluta. Reduzir o ocorrido a apenas conseqüência do atentado e acusar os eleitores que se decidiram pelo PSOE de que deram um cheque em branco ao terrorismo é tão errado quanto injusto, quando não, uma falta de respeito condescendente. A votação do dia 14 não foi um referendo sobre o terrorismo: foi uma opção entre dois partidos e duas atitudes diante da aventura do Iraque.

Em primeiro lugar, os argumentos tenazmente esgrimidos pelo PP sobre a aparentemente espetacular melhora da economia espanhola se viam contrapostos pelo alto custo social da desproteção de numerosos setores em um mercado liberalizado. Diante do alto custo da moradia, que a deixava fora do alcance dos jovens, um ministro de Aznar disse que era cara “porque os espanhóis tinham muito dinheiro no bolso”. Os que não o têm, naturalmente, esperaram as eleições.

Quando surgiu a crise derivada do encontro de Josep Lluíz Carod Rovira, o dirigente do partido independentista catalão Esquerra Republicana, com representantes da ETA, igualou-se todos os catalães como cúmplices do terrorismo. Em aparente resposta, os partidos catalães, com exceção do PP, dobraram suas cadeiras no Congresso. A tranqüilidade com que o PP encarou as eleições também contribuiu para sua queda. O eleitorado contemplava atônito como, enquanto se caminhava para a autoria islâmica do atentado em Madri, o governo continuava insistindo na pista da ETA. Na própria véspera das eleições, exercia um lobby desesperado sobre os correspondentes estrangeiros reafirmando a autoria da ETA. Foi assim que, repentinamente, se passou a interpretar a manobra do governo como manipulação e mentira. Não foi um rechaço à luta antiterrorista, mas a máxima bíblica e tradicional do “não mentirás”.

A Washington nada mais resta a não ser esperar a lógica conseqüência da mudança: oferta de colaboração por parte do governo do PSOE, em sintonia com os sócios europeus que continuam contando no emaranhado internacional (a “velha Europa”, para onde a Espanha regressa, por seu contexto natural), lealdade sincera na luta conjunta contra o terrorismo internacional e interno. (O autor, Joaquín Roy, é diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami)