08 de julho de 2026
Cultura

O circo vive

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

Tato Ananias é artista de circo por opção. Sem nunca ter pisado num picadeiro, ele decidiu, em 1999, aprender a lidar com as pernas de pau, os malabares e monociclos e hoje, ao lado de Cláudio Santana e Guilherme Moura, leva o circo a todos os cantos com a Companhia Catapimba de Teatro, Circo e Afins. Atuando como malabarista, equilibrista ou até mesmo palhaço, Ananias tem uma visão otimista sobre os rumos do circo. Para o artista, o circo não vai morrer, está em transformação. A seguir, os principais trechos da entrevista com o artista realizada pelo JC lembrando o Dia do Circo e Teatro comemorado ontem.

Jornal da Cidade - Como você aprendeu a arte circense?

Tato Ananias - Praticamente sozinho, com uma ou outra pessoa dando um toque, observando. Ultimamente o Guilherme tem pesquisado malabarismo na Internet e a gente vai aprendendo.

JC - Quando você começou a se interessar pela arte circense?

Ananias - Foi em 1999. Eu pintava quadros, mas cansei. Sempre gostei de teatro, tinha feito o curso do Paulo Neves mas ainda não tinha apresentado nada. Daí um dia vi o Catapimba no Sesc. Naquele dia vi que não devia ficar só como espectador. Fiquei pensando nisso porque antes achava que o artista de circo tinha que nascer lá, ter aquela origem. Percebi que eles não eram de circo e resolvi aprender também. Comecei a pesquisar e fui descobrindo. mandei fazer um monociclo e fui treinando. Meus amigos começaram a se interessar, quiseram aprender e tem dado certo.

JC - Você nunca trabalhou no circo?

Ananias - Não, nunca pisei num picadeiro.

JC - Você acredita que o fato de desenvolver a arte circense sem nunca ter pisado em um picadeiro pode ser um dos sinais do fim do circo?

Ananias - Não acho que seja o fim do circo. As coisas mudam. A arte circense sempre mudou, as mudanças da história impulsionam, como aconteceu com a pintura. Quando surgiu a fotografia não havia mais a necessidade de se pintar copiando a realidade, a foto fazia isso. Daí reinventaram a pintura, os artistas liberaram suas criatividades e o impressionismo explodiu. Com o circo é a mesma coisa, a partir do momento em que apareceu o cinema, a TV, o circo ficou de “calça justa” e teve que reagir. Trabalhar a arte circense fora da lona é uma forma de reagir.

JC - A arte circense está caminhando para o teatro também?

Ananias - Está, mas não que isso signifique o fim da lona. Se eu tivesse uma lona iria gostar de me apresentar dentro e fora dela, sem problemas. O Cirque du Soleil preserva a lona mas nem por isso deixa de fazer apresentações para a televisão ou em outros espaços. Eu já usei modalidades do circo no teatro.

JC - O circo só sobrevive se for flexível?

Ananias - Com certeza, é muito difícil competir com a TV e o cinema. O que sobrevive hoje é o circo bem pequeno e o bem grande. O circo médio não tem quase espaço, é o que mais sofre porque nunca arrecada o suficiente para cobrir as despesas e também não pode cobrar tanto quanto um circo grande como o Soleil. Isso é o que eu percebo. A tendência é que os artistas destes circos acabem indo para os grandes ou para os bem pequenos. Muitos artistas também se adaptam à arte de rua, se apresentam em raves, a arte vai tomando novas formas, a linguagem vai mudando e os espaços também.