08 de julho de 2026
Articulistas

Campanhas sujas e partidos fracos


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O voto personalizado para deputados e vereadores produz campanhas sujas e partidos fracos, sem coesão, “legendas” montadas pelo somatório aritmético de candidatos rivais entre si. Mais adiante, dificulta alianças parlamentares programáticas, pulveriza o campo de negociação, reforçando o fisiologismo como moeda corrente. A atual proposta de “reforma política”, que tenta instituir a eleição proporcional por lista partidária, como na Espanha e em Portugal, vem sendo criticada. Mereceria um olhar mais atento.

A discussão do financiamento público não é o seu aspecto principal. De fato, ele já existe com o tempo gratuito de propaganda de rádio e TV e o fundo partidário. Mais importante seria reduzir os custos, tanto públicos quanto privados, das campanhas e, por conseqüência, o campo de manobras da corrupção. O voto no candidato e não no partido encarece-as enormemente, dificulta a consolidação de agremiações minimamente programáticas, alimenta a cultura individualista de troca-troca, impõe aos candidatos um “cada um por si e Deus por todos” na caça aos fundos de campanha. O maior concorrente tende a ser o companheiro de partido com perfil mais próximo.

Impera a aritmética, a qualidade pouco importa. As campanhas exploram mecanismos apolíticos de notoriedade: religião, esporte, entretenimento. A reeleição depende, cada vez mais, de serviços assistenciais para uma clientela desvalida: os famosos “centros” batizados com nome de político, suas ambulâncias, remédios e dentaduras. O parlamentar vira um provedor de assistência privada, um negociante e um despachante.

A maioria dos bons quadros da sociedade civil foge dessa vida política nauseabunda. Quem não dispõe de fortuna individual, púlpito de pastor, microfone de radialista, direção corporativista ou comando de baile funk, quem prefere evitar compromissos comprometedores ou, no mínimo, embaraçosos, terá crescente dificuldade para competir. Para o político íntegro, essa ave rara, vai se chegando à quadratura do círculo.

No voto por lista seria mais fácil, para os partidos programáticos, aportar quadros com uma autêntica vocação para o trabalho legislativo e o serviço público. O Congresso teria maior estabilidade e os partidos mais coesão e responsabilidade. Pode-se objetar que no voto por lista partidária a corrupção migrará para as convenções - onde, de fato, periga morrer gente - e que candidatos comprarão seu lugar na lista, que os caciques partidários concentrarão o poder, etc... Tudo isso é verdade mas representa um mal menor em relação ao quadro atual.

Talvez um sistema misto, à alemã, com metade eleita pelas listas e a outra pelo voto majoritário, nos distritos (de preferência em dois turnos), fosse a melhor solução. Os horários eleitorais, tanto para o Executivo como para o Legislativo, deveriam se restringir a debates ou entrevistas ao vivo, proibindo-se a publicidade, o que também baratearia bastante as campanhas, reduzindo sua dependência tanto do poder econômico quanto do financiamento público. Considerados prós e contras, soam mais consistentes os argumentos favoráveis à tão hostilizada “reforma política”, considerando-se, é claro, que não há, em nenhum país, sistema eleitoral imune a críticas. Se governar é, como dizem, “trocar problemas maiores por problemas menores”, aqueles resultantes da reforma parecem, de fato, menores que os atuais, sobretudo quando projetados no tempo. (O autor, Alfredo Sirkis, é dirigente nacional do Partido Verde e secretário municipal de Urbanismo da cidade do Rio de Janeiro)