Lula da Silva, no início de governo, usou e abusou da metáfora do “transatlântico” para designar o imenso Brasil. Imagem magalômana de gigante moderno com complexa tecnologia, singrando os mares a caminho de um futuro promissor, sustentado pelas forças do mercado capitalista. Exigia prudência no manejo e cautela na mudança de rumo. Ninguém imaginava que, em tão pouco tempo, o pujante transatlântico virasse um navio fantasma sem comando e sem rumo, assombrando tripulação e passageiros.
Cenário enigmático desponta no início do segundo ano de governo. O desastre de 2003 alastra-se pelo País afora. A brutal recessão econômica, só ocorrida no ano da derrubada de Collor, traz efeitos devastadores sobre a vida social brasileira. O governo porfia na ortodoxia: combate rígido à inflação e exacerbada economia para juntar dinheiro para pagar dívidas. Assustadora, é a queda da renda dos assalariados. Devasta as classes populares e exaspera as classes médias. Grave é o sumiço dos investimentos nacionais e internacionais. Mais grave é a percepção, na opinião pública, do papo furado, da ausência de projeto para o País e da ineficiência absoluta da administração petista. (...)
Quando o navio fantasma, sem timoneiro e sem rumo, começava a fazer água, desaba a imensa tempestade, com ventos devastadores e raios certeiros. Explode o caso Miro Diniz. O grande enigma do episódio foram os ânimos do Ministro Zé Dirceu: sempre à beira de um ataque de nervos. Lula emudeceu. Zé Dirceu encenou abatimento e dor de corno de marido traído. Saiu de cena e o governo perdeu o rumo. Logo quando Zé Dirceu tinha sido escalado para gerenciar a emperrada máquina administrativa. Propunha a por ordem na bagunça e na ineficiência dos ministros petistas. Pousava, em fins de janeiro, para incômodo de todos, de manda-chuva. Prometia controlar e azeitar a ação do governo. Tanto rompante autoritário, constrangedor para companheiros, mereceu carraspana de Lula: “Devagar Zé! Quem é o presidente? Baixa a bola e para de atropelar todo mundo. Faça como o Lulinha paz e amor. Calma e elegância. No papo, no papo, no papo...”
O navio fantasma continuou a fazer água. A base parlamentar arrepiou. Aproveitou a crise para querer montar no governo. O PMDB, que brigou meses por cargos, agora altaneiro, com cinismo, afirma querer desenvolvimento e criação de empregos. O aliado de primeira hora esculhamba em pleno Palácio do Planalto o ministro Antônio Palocci e a política econômica do governo. Para aplacar a crise, o governo fica refém de seus aliados. Distribui cargos, libera recursos para a base parlamentar insubmissa e valente. (...)
A oposição age, também, de forma enigmática. Os aposicionistas petistas dão um tiro no coração do governo Lula. Em plena crise exigem mudança da política econômica. O PFL e o PSDB metem o pé do balde do governo petista. Zé Serra, sem saber muito bem o que fazer e o que dizer. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, metralha competente mas quase solitário. O PFL secundava o tiroteio atirando sem mirar no centro do alvo. Trucidam o governo e as lideranças petistas. Recuam prudentemente nos últimos dias.
Fernando Henrique resolveu organizar o tiroteio. Chama todo mundo para receber orientação inteligente. Resolve por ordem nos procedimentos. Primeira diretriz: maneirar. CPI foi um bom caminho mas não merece insistir muito. O desgaste calamitoso do governo petista já foi realizado e terá seus efeitos nas eleições municipais. Zé Dirceu, que trata seus auxiliares a ferro e fogo, não pode querer vender a imagem de ingênuo, o último a saber... Miro Diniz, Burattis, Moleros da vida e muitos outros faziam e fazem parte de um time articulado sob o comando de Zé Dirceu, Quem não acredita é parvo. O caso Diniz desmoralizou a arrogância e a prepotência petista. Explica os gestos desorientados das lideranças. Os efeitos sobre as eleições municipais de 2004 já se fizeram sentir, A grande vitória petista nas eleições municipais já foi para o ralo. Mas não se pode deixar o navio fantasma ir a pique. Fernando Henrique sabe disto como toda oposição. Não vai funcionar mais sob holofotes, mas nos meandros do poder, articulando a sociedade. O horizonte das oposições situa-se em 2006. É preciso calma e paciência.
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.