11 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Um companheiro meio atrapalhado


| Tempo de leitura: 3 min

“Não é fácil encontrar companheiro de pescaria que encare qualquer rio ou qualquer lugar. Meus irmãos, por exemplo, só se sentem seguros quando conseguem alcançar as duas margens do rio ao mesmo tempo, por isso eu os mandei irem pescar no riacho do Jacutinga em Avaí e fui com meu novo companheiro Irineu para o Tietê, pois ele dizia saber das coisas e quis saber o que caberia a ele levar. ‘Leve comida e bebida para dois e deixe o resto por minha conta’, respondi.

O Irineu deixou o seu fusquinha na garagem da minha casa em Bauru e quando o dia raiava nós já estávamos subindo o rio Tietê, a cima de Arealva, cerca de hora e meia, e eu já estava com ‘sede’, mas como essa parte era de responsabilidade do amigo, esperei que ele me oferecesse.

Esperei pacientemente até ao meio-dia quando a fome também me apertava, os outros pescadores por perto já abriam suas marmitas, bem como suas latinhas de refrigerantes ou cervejas, fazendo aquele barulhinho característico e tentador, mas meu parceiro nem se tocava. Para ativar a sua memória eu lhe disse:

- Ô Irineu, está ouvindo aqueles estalidos com uns chiadinhos que vêm dos outros barcos?

- Como é?, quis ele saber.

- Assim ó, táxisss... táxisss..., tentei imitar.

- Mas por que alguém chamaria um táxi aqui?, respondeu.

- Não é isso, não, Irineu, acorda sô, é barulho do abrir de latas de refrigerantes, de cervejas, tá entendendo? Os outros pescadores estão tomando umas cervejinhas geladinhas, tá sabendo?

- Ahhh! Agora eu entendi.

Mas continuou no mesmo lugar, o sol estava quente uma barbaridade, então eu resolvi ser mais claro:

- Irineu, cadê o lanchinho com aquela cervejinha que eu pedi para você trazer para nós?

- Você não pediu lanchinho nem cervejinha, você disse comida e bebida.

- Tá bom, tá bom, o que você trouxe de comida?

- Polenta com macarrão, respondeu ele todo contente.

Fingindo não estar decepcionado, ainda perguntei:

- E bebida?

- K-suco de abacaxi, disse ele muito feliz da vida.

- Então passe minha parte para cá que eu estou faminto e sedento, pedi.

Mas o Irineu procurou nas tralhas dele, nas minhas e no barco inteiro mas não encontrou o nosso lanche. ‘Acho que esqueci lá no seu carro’, disse afinal.

- Então nós vamos lá buscar, disse eu e já dei partida no motor de popa com tanta força que até arrebentou a fieira.

Quando chegamos em Arealva, eu estava mais impaciente do que com fome ou sede. Mas ainda não foi desta vez que o Irineu encontrou o nosso lanche. ‘Acho que esqueci lá no meu carro em Bauru’, explicou ele.

- Então pega o meu carro e vai em Arealva comprar outro, eu pedi.

- Mas eu também esqueci a minha carteira.

Não tendo mais o que pensar, eu dei dinheiro para o amigo comprar um novo lanche e, é claro, com outro cardápio, mas ele ainda pediu para retirar o reboque de trás do carro, pois não estava acostumado.

- É só dirigir sempre em frente, fazer as curvas em aberto e não dar ré, ensinei.

Enquanto esperava, eu até dormi numa sombra. Quando ele voltou, três horas depois, o meu carro estava amassado na traseira e a carreta-reboque estava com o cabeçalho torto.

‘Eu me perdi em Arealva, esqueci da carreta, dei marcha-à-ré, a carreta deu L...’, dizia ele.

- Chega, chega de lamentações, vamos pescar, respondi.

Mas eu não tinha mais fome, nem sede e também não queria mais pescar. Então voltamos para Bauru e na despedida o Irineu ainda me disse:

- Eu gostei da nossa pescaria, mas não sei se você me aprovou. Mas se aprovou, convida de novo que eu vou.”

Eurico de Oliveira é pescador e contador de histórias.