Falar de sexo para quem ainda não o fez. Essa é a estratégia que será adotada pelo projeto piloto “Responsabilidade Social - Urologista Cidadão” para tentar reduzir as estatísticas de gravidez precoce, aids e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST).
O programa de prevenção, que será lançado em Bauru oficialmente hoje pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) seccional São Paulo e pela Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social, vai focar crianças carentes de 7 a 14 anos.
“Não significa que outras de 15, 16 e 17 anos não possam participar das aulas. Estamos esperando uma aceitação grande por parte dos pais. Eles serão informados sobre a proposta antes das aulas (com as crianças) e receberão um gibi com informações”, explica a diretora da Divisão Regional de Assistência e Desenvolvimento Social, Maria Moreno Perroni.
A idéia é formar as crianças e, através delas, convencer seus responsáveis sobre a importância do sexo seguro, informa o presidente da SBU Seccional São Paulo, Agnaldo Nardi. “O apelo não é tão eficaz para quem se iniciou sexualmente. Por isso, vamos abordar crianças que já estão aptas a receber informações do meio externo. O nosso enfoque principal será a prevenção contra a aids”, diz.
O projeto prevê uma aula de 20 minutos, um vídeo de oito minutos e, em seguida, um debate com os participantes. “Os modelos (de programas) apresentados até agora mostram, por exemplo, lesões no pênis. São imagens que chocam. Nós trabalhamos nosso material didático com uma linguagem específica para o público”, explica o urologista.
De acordo com ele, uma psiquiatra da Universidade de São Paulo (USP) e pedagogos ajudaram na elaboração das aulas, que contarão com o auxílio do Dr. Uro. Trata-se de um personagem que responde às dúvidas mais freqüentes levantadas pelas crianças.
Em Bauru, as quase 700 cadastradas nos programas da Divisão Regional de Assistência e Desenvolvimento Social devem conhecê-lo. Numa segunda etapa, as aulas poderão ser estendidas para cerca de 850 mil famílias no Estado todo, que constam nos relatórios da secretaria.
No entanto, outras entidades e escolas também podem solicitar o desenvolvimento do projeto. “Ele é muito importante. Aqui recebemos estudantes da periferia, carentes também de informações e conhecimento. Eles têm muitas dúvidas”, explica a professora de uma escola estadual de Bauru, Nilda Maria de Siqueira Batalha.
Seu aluno Rodrigo Batista da Silva, por exemplo, tem dúvidas sobre a transmissão da aids. Aos 14 anos, ele conta que namora há pouco mais de um mês, mas que não manteve relações sexuais com a garota porque os dois ainda não acharam apropriado.
“Minha mãe não fala diretamente (sobre sexo). Dá algumas indiretas quando a gente está vendo televisão, por exemplo. Mas minhas colegas (que já se iniciaram sexualmente) falam naturalmente. Acho bom qualquer esclarecimento”, comenta Letícia Kfouri Sesmello, que aos 13 anos também não tem experiências sexuais.
Já para duas meninas de 12 e 10 anos, sexo e gravidez parecem algo distante, embora no bairro em que moram uma garota de 11 anos já seja mãe. Para ambas, a menstruação ainda é a maior preocupação.
“Não recebemos nenhuma queixa direta, mas muitas crianças até percebem os pais mantendo relações sexuais por causa da estrutura familiar e da casa. A curiosidade pode levá-la a uma informação equivocada. É essencial prestar orientações antes da iniciação sexual”, conclui a coordenadora de um dos programas da secretaria, Renata Rodrigues Mendes Gonçalves.
____________________
Lançamento
O lançamento do projeto de educação sexual será hoje, a partir das 8h30, na Universidade do Sagrado Coração (USC), que fica na rua Irmã Arminda, 10-60. Participam do evento representantes do Palácio dos Bandeirantes, das secretarias estaduais de Assistência e Desenvolvimento Social, da Segurança Pública, da Procuradoria Geral do Estado e de cerca de 300 cidades da região.
Também estará presente na solenidade, que será aberta ao público, o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB), para quem a idéia do projeto é inédita e deve ser seguido por outros setores da sociedade. “Todos nós, como cidadãos, temos que assumir a nossa responsabilidade social e contribuirmos para a construção de uma sociedade mais justa e humana”, diz o parlamentar, que também é médico.
Ele também deve participar de uma palestra sobre políticas públicas para crianças e adolescentes. As atividades programadas para o evento só serão encerradas à tarde, após a assembléia de prestação de contas do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Condeca). Outras informações através telefone do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente que é (14) 3232-4480.
____________________
Leia mais sobre este assunto
• Menos de 10% dos casos de aids em Bauru são entre adolescentes