Um dia nosso Brasil foi diferente. Foi ético, utópico. Um dia Ottoni se entregou de corpo e alma às suas idéias. Pegou em armas e assaltou bancos para financiar a clandestinidade de companheiros e operações urbanas ou rurais que abalassem os alicerces da ditadura. Ottoni um dia foi preso, torturado pelo delegado Fleury e outros sádicos. Nada disse que não poderia ser dito, a fim de preservar a vida dos companheiros da ALN. Ottoni Fernandes Jr. - esse o seu nome todo -, um cara de 2 metros de altura e outro tanto de integridade. Excelente jornalista, editor de economia. Quase fomos amigos. Agora sai o seu livro “Abrindo o baú - memórias de um guerrilheiro urbano” (Ed. Record). Será que já não escreveram o suficiente sobre o assunto no Brasil? Pelas prateleiras das livrarias já passaram depoimentos de importância inquestionável como os de Gabeira, Sirkis, Flávio Tavares, Frei Betto, a versão local de Pedroso Jr. Mas aí é que está... O filão das sangrentas e idealistas aventuras, atos de coragem e covardia, intrépidas ações de seqüestro que tantas vidas essenciais salvaram para o País nunca se esgotará. Tantos foram os mortos que merecem ser lembrados. Tantas as atrocidades que têm que ser contadas e recontadas inúmeras vezes. É preciso dizer e repetir até que o homem perca o prazer perverso de inflingir dor no próximo, torturar mais do que corpos, almas.
Ainda não foi contado como a imprensa brasileira recebeu, calada, a notícia de que o Brasil havia mergulhado numa ditadura. Quando foi decretado o Ato Institucional n.º 5, no dia 13 de dezembro de 1968, a “Folha”deu uma manchete acompanhada de nota de quatro linhas. Nada mais. Nenhum comentário. Era como se dissesse “sim, senhor”.
Deu no que deu. Quando a imprensa quis botar a cabeça para fora os militares mandaram censores diretamente para as redações. O período mais difícil para o exercício da profissão foi logo depois do AI-5. O governo Médici foi terrível. Quando chegaram os generais Ernesto Geisel e João Baptista de Figueiredo (1979-1985) a opressão contra a liberdade de informação desapareceu, mas criou-se uma atmosfera de autocensura, muito pior do que a censura explícita. Até hoje os jornalistas se seguram com medo de desagradar os patrões e perder o emprego.
O que salvou foi a “imprensa nanica”, assim chamada por ser impressa em formato tablóide. Nanica coisa nenhuma. O formato servia para diferenciar uma imprensa alternativa daquela dominada pelo sistema. Poucos anunciantes (ou nenhum), discurso plural e uma idéia comum: contestar o golpe. “O Pasquim”, de julho de 1965, foi o mais bem sucedido de todos eles. Quem diria que patota carioca, a esquerda festiva de Ipanema, dos bares e restôs da moda, entraria para a história do jornalismo brasileiro? Ditou linguagem, antecipou comportamentos (a entrevista com Leila Diniz, grávida, fotografada de biquíni na praia), atingiu 300 mil exemplares vendidos em banca. Um recorde e uma referência. Na esteira vieram os políticos: “Opinião”, “Movimento”, “Versus” e “Ex” com sua capa marcante sobre a morte de Wladimir Herzog, em 1975. O pessoal da direita botava fogo nas bancas que vendiam essas publicações.
Fico pensando se um movimento ditatorial conseguiria calar a liberdade de expressão, hoje, com a Internet. Impossível. Graças a ela o movimento guerrilheiro de Chiapas, no México, ganhou projeção internacional e derrubou um partido majoritário há mais de 40 anos. Volto ao baú do Ottoni, saudoso das românticas cervejadas e discussões teóricas que entravam madrugada a dentro no Bar das Putas, ponto de encontro dos jornalistas na Major Sertório. O pau de arara, as greves de fome, as crenças e descrenças, todo o seu sofrimento não tiraram sua fé nos destinos do Brasil. De maneira didática e saborosa, indo e voltando no tempo, o “Grandão” constrói um mosaico cronológico que pode ser livremente montado no imaginário do leitor. O autor narra o que já foi narrado sob um novo prisma, o de um olhar mais maduro, distanciado e sábio. A leitura do seu livro só não me deu prazer por reviver o sofrimento de um quase-amigo nas prisões. Alguém que um dia foi à guerra pelo povo, e eu, fiquei.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista a colaborador do JC.