26 de maio de 2026
Tribuna do Leitor

Bebida é água...


| Tempo de leitura: 4 min

Enfrentamos hoje uma das maiores crises de abastecimento de água no mundo. Dentro da história contemporânea, o homem foi autor de várias corridas em busca de instrumentos transformadores políticos, econômicos e sociais. Dentre essas buscas, vale lembrar a corrida do ouro, onde consagrou colonizadores espanhóis, portugueses e ingleses, além, é claro, da corrida do petróleo, esta, ainda em vigência, sob controle do poderio norte-americano e suas indústrias imponentes.

Porém, nossa maior corrida já começou. E diferentemente das outras nos traz medos e incertezas, é a corrida da água. Mas há que nos preocupamos, pois em detrimento às outras fontes de riquezas, esta ainda não encontrou seu bem substituível, como é o caso do petróleo, por exemplo, que futuramente será substituído por hidrogênio como fonte energética.

Mas quem foi o responsável por este caos instalado nos mais remotos cantos do mundo? Num primeiro momento há de se deixar claro a quanto funciona a reserva de água mundial. O nosso planeta possui cerca de 70% do seu território formado por água, o que nos deixa até surpresos por ele se chamar planeta Terra e não água. Ainda assim, qualquer coincidência com abundância termina aí mesmo. Dos 70% da água mundial, somente 3% é considerada potável, ou seja, própria para consumo, isso já torna nossa situação alarmante. Na casa dos 3%, parte dessa água se encontra em estado sólido, congelado nos pólos, e outra parte se encontra em lençóis freáticos, isto é, em subsolo onde o homem não tem acesso livre, além do que já se encontra poluída, sobrando então cerca de 1,7% de água para ser consumida. Isso é claro dentro dos setores onde ela é empregada, como é o caso das indústrias, agricultura, alimentação e higienização. Seria como dizer que no mundo há um copo de água disponível para cada habitante da Terra. Mas precisamos saber quem são os responsáveis por essa situação preocupante. Este é o caos hídrico pelo qual 6 bilhões de habitantes estão condenados a passar.

Num segundo momento podemos citar as indústrias, responsáveis por um gasto estimável de 38% da água potável no mundo, mas isso não é o pior. Além dos gastos excessivos de água, ainda são responsáveis por poluírem os mananciais. Se estão atordoados com esta notícia, se preparem para o pior: o maior responsável pelo desperdício de água no mundo é o setor primário, em outras palavras, a agricultura que, pasmem, consome cerca de 60% dos recursos hídricos mundiais. Isto é um acinte.

Resta-nos a pergunta: e nós, meros seres vivos que necessitamos de, no mínimo, 10 litros de água por dia para a alimentação, como ficamos? Com sede? É como se dizia Arnaldo Antunes: “Bebida é água, comida é pasto, você tem sede de quê?”

Eis a pergunta que não quer cessar. Qual sede seria essa de milhões de africanos que vivem com 2 litros de água diários para alimentação e higienização, isso se tiverem água na aridez de seu continente; ou de milhões que vivem em conflitos diários por posses de territórios onde a água vale mais que um barril de petróleo.

E a ética do uso? Como nós, brasileiros, podemos olhar e ficar de braços cruzados vendo bilhões necessitando somente de um copo, um copo de esperanças, e olharmos para a nossa imensidão de rios, nascentes e lençóis freáticos sendo poluídos, maltratados, privatizados? Realmente, “Deus é brasileiro”, mas Ele também é justo. Faz justiça para os injustos, aliás, justiça seja feita, já estamos pagando pelo mal uso e descaso. A grande São Paulo sofre com o rodízio hídrico; é engraçado falarmos de grandes centros porque a Alemanha, grande potência mundial, tem menos da metade dos recursos hídricos brasileiros e não sofre com o problema de falta de água!

Certamente o primeiro passo para a recuperação hídrica está nas pequenas atitudes do nosso cotidiano, práticas simples, mas que poderão dar um novo parâmetro para os nossos mananciais. O simples ato de reduzir o tempo no banho, fechar a torneira, não lavar automóveis, não lavar calçadas etc.

Agora consigo entender o motivo de tantos manifestos pró-água, como o ano internacional das águas, comemorado no ano de 2003; Dia Internacional das Águas, comemorado dia 22 de março; Campanha da Fraternidade, refletindo este tema em 2004. Na verdade, não conseguimos entender até quando a natureza será complacente conosco. Até quando vamos ser desculpados pelas insanidades impostas pelos donos da verdade, donos do dinheiro, donos das terras, herdeiros da destruição.

Professor Alexandre Camilo Magalhães - RG 30.239.222-1