A mostra do Sesc está repleta de heróis que, ao contrário dos deuses, são figuras mortais. Um dos primeiros heróis da fila é Jasão, que construiu o maior e mais seguro navio grego, Argos, e se tornou o símbolo do espírito de equipe e cooperação entre os homens.
A heroína Ariadne, que traz para os mortais o significado do feminino, da intuição e da conciliação, estará posicionada próxima a Atalanta, a mulher que se rebelou contra sua posição inferior ao homem.
Outro ponto alto da exposição será a instalação “Labirinto do Minotauro”, que aborda a saga de Teseu, o herói que se consagrou como exterminador do monstro. O espaço - decorado por várias cortinas confeccionadas em lã vermelha - é um dos mais chamativos da mostra. “Ariadne entrega um novelo de lã para que Teseu não pudesse se perder e conseguisse sair do labirinto”, diz Maria Augusta.
Já a saga do valente Perseu, que derrotou a Medusa (a mulher com cabelos de serpente) é retratada na mostra em uma atraente instalação composta por dois grandes círculos. O primeiro contém a história da luta entre Perseu e a Medusa, mas para ser lida, o visitante precisará de um espelho, que estará posicionado no segundo aro. Na lenda, o herói utilizou um espelho para matar a Medusa, que poderia transformar em pedra qualquer pessoa que a olhasse.
Interatividade
Essa mistura de representações mitológicas através de estátuas, imagens e instalações tem um diferencial: todos os elementos da mostra buscam interagir com o público. Dessa forma, além de poder tocar em diversas peças, os visitantes encontrarão diversos jogos e atividades lúdicas sobre a vida dos heróis gregos.
“É através da brincadeira que a criança consegue realmente absorver essas questões da mitologia grega”, afirma Maria Augusta. Os destaques são um jogo de memórias, além de um quebra-cabeças e cubos sobre os 12 Trabalhos de Héracles - que representam o ideal do triunfo do espírito e da sabedoria sobre os instintos e as paixões.
A tecnologia está presente em uma instalação eletrônica que se assemelha aos videogames. Produzido com um material fluorescente em verde e vermelho, o aparelho é destinado especialmente às crianças. “Elas poderão conectar os heróis com suas características e, se fizerem de forma correta, três luzes vermelhas se acenderão”, adianta a coordenadora do evento.
Os pequenos também serão estimulados a ler em um espaço contendo diversas estantes rechedas de livros sobre mitologia grega para diferentes faixas etárias. O ambiente guarda ainda a figura do herói mais sábio da Grécia, Odisseu.
Universo real
Além de representar o plano mitológico, “Que Herói Sou Eu?” visa trazer elementos que aproximam a civilização grega do dia-a-dia. Para isso, a exposição apresenta uma instalação referente à arquitetura da Grécia. Construída com belas e grandes colunas, ela representa Atenas do século 5 A.C. “Dentro do espaço, haverá performances com estátuas vivas”, revela Maria Augusta.
O alfabeto grego também será retratado de forma lúdica. Assim, as letras - recortadas em grandes placas aderentes - estarão à disposição das crianças para serem manuseadas e pregadas em uma lousa. Em seguida, a mostra apresenta diversas plotagens que imitam peças da cerâmica e do artesanato grego, uma das principais formas de narração dos fatos históricos da época.
Outra herança deixada pela Grécia, a tribuna, também será representada na exposição. “Nesse espaço, os gregos podiam expor suas opiniões, participarem de votações e discutirem filosofia e democracia, conceitos que utilizamos no nosso mundo real”, aponta a coordenadora.
• Serviço
Mostra “Que Herói Sou Eu? Pensando e Jogando no Mundo Grego” pode ser vista até o dia 30 de maio, no Sesc. A entrada é gratuita. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.
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Arquétipos modernos
A figura dos heróis esteve presente em todas as épocas, inclusive na atual, representando modelos a serem seguidos pela sociedade. Na opinião da jornalista, mestre e doutoranda em língua e literatura grega antiga pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Cristina Rodrigues Franciscato, os heróis trazem a idéia de proporcionar o bem comum através do uso de forças e poderes sobre humanos.
“A possibilidade de realizar feitos incomuns e grandiosos iguala os heróis de qualquer época e cultura”, explica Cristina, que participou da equipe de montagem do evento “Que Herói Sou Eu?” e preparou a equipe de monitores do Sesc. A mitologia grega, influenciou mitos envolvendo deuses e heróis para diversos povos ocidentais e está presente na fantasia da maioria das pessoas.
“Quem nunca ouviu falar, por exemplo, do Héracles e seus 12 Trabalhos, ou de Perseu que matou a Medusa, ou de Teseu que matou o Minotauro? Então de alguma forma, esses heróis gregos até pela Grécia ser o berço de nossa civilização ocidental, continuam presentes no nosso imaginário”, aponta Cristina.
Os heróis atuais, simbolizados em personagens como Homem-Aranha, Super-Homem, Capitão América, entre outros, carregam algumas características dos heróis gregos e funcionam como modelos para a formação ética das crianças. “Toda época, através da história, cria seus heróis do momento”, afirma. Cristina, ressaltando que hoje, a única diferença está no nome - super-herói, devido ao sucesso dos quadrinhos.
De acordo com ela, a exposição promovida pelo Sesc deixará os heróis em evidência, mostrando de que forma eles podem ser utilizados como modelos de valores éticos. Entre eles, coragem, determinação e a realização de trabalhos que refletem no bem comum.
“Quando Héracles mata todos aqueles monstros, ele está livrando a humanidade de todos os perigos que comprometiam aquela civilização. Assim, o herói presta um serviço à comunidade”, destaca Cristina, que traduziu a tragédia “Héracles”, de Eurípides, do grego para o português.