08 de julho de 2026
Ser

Mulheres que amaram demais

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

As heroínas gregas e a história que as envolve são possibilidades arquetípicas de comportamentos femininos. Ao contrário das deusas, elas estavam ainda mais próximas das mulheres comuns.

Os problemas que cada uma delas enfrenta passa pelo âmbito da deusa Afrodite, que é temida e venerada, subjuga deuses e mortais, mas as atitudes exacerbadas dessas heroínas se assemelham aos atos estampados hoje no cotidiano, nas páginas de jornais.

Cristina Rodrigues Franciscato, que traduziu a tragédia Héracles, de Eurípedes, (Editora Palas Atena) do grego para o português, relata os feitos destas heroínas que em princípio eram ingênuas, ficam cegas de amor e que, iradas, tomam as suas providências, movidas pelo sentimento que a vida apresenta a elas, sem medir as conseqüências.

Helena

Uma mulher de muitos homens

Desde pequena, Helena desperta paixões e contendas. Raptada por Teseu (que matou o Minotauro) ainda menina, é criada pela mãe do herói, enquanto este parte para novas aventuras. Salva pelos irmãos, teve, mais tarde, quase todos heróis da Grécia como pretendentes. Casa-se com Menelau, rei de Esparta, mas desperta o amor do príncipe troiano Páris e é raptada por ele, dando origem à guerra de Tróia. Durante a batalha, Páris morre e Helena é dada ao cunhado Deífobo como esposa. Ao término da guerra, Menelau a recupera, mas quando vai matá-la, ela deixa cair o vestido e lhe mostra os seios nus. Menelau guarda a espada leva Helena para Esparta. Na Odisséia, uma passagem cita que os dois vivem muito bem, como se nada tivesse acontecido. Segundo alguns autores, o destino último de Helena foi Aquiles.

“Alguns exemplares privilegiados da natureza feminina têm essa natureza de Helena, de ter toda uma trajetória de sempre atrair muitos homens”, brinca a pesquisadora. Por outro lado, ela explica que o mito nunca explicita a heroína feliz com nenhum desses pares.

Penélope

Fidelidade a toda prova?

A versão mais difundida conta que Odisseu deixa a esposa Penélope e o filho em Ítaca e parte para a guerra de Tróia. A batalha dura dez anos, mas o herói demora mais dez anos em aventuras antes de voltar. Nesses 20 anos, Penélope é cercada por pretendentes que dissipam os bens do palácio tentando obrigá-la a escolher um novo marido, pois todos acreditavam que Odisseu estava morto e não voltaria. Então, ela promete escolher um deles, assim que terminasse o manto que tecia. Mas absolutamente fiel ao marido ausente, desmanchava durante a noite o que tecia durante o dia! Um belo dia, o marido volta, mata todos os pretendentes e fica com Penélope.

“Cada vez mais, eu acredito que Penélope é um exemplar em extinção. Que mulher hoje esperaria o marido por 20 anos. Não sei se esperam 20 dias. O mito em questão é a fidelidade à toda prova. Alguns autores de períodos posteriores chegam a acusá-la de ter casos com todos os pretendentes”, aponta Cristina.

Clitemnestra

O feminino viril: traição e vingança

Ao partir para Tróia, com o intuito de obter ventos favoráveis, Agamêmnon, chefe da guarda e irmão de Menelau, engana Clitemnestra sua esposa e sacrifica Ifigênia, filha de ambos para que Ártemis, deusa da caça, enviasse bons ventos aos guerreiros. Clitemnestra leva a filha ao sacrifício pensando que iria levá-la ao casamento com Aquiles. Agamêmnon retorna vitorioso e traz consigo a sacerdotisa Cassandra, espólio de guerra e concubina. A esposa recebe-o com honras de deus, mas no íntimo seus planos são outros. Durante o banho, ela joga uma rede sobre o marido, o apunhala com três facadas e o mata.

“Nesse mito, o feminino atualiza em si uma proposta masculina muito grande. Além do desejo de vingança por ter sido traída principalmente no que lhe é mais fundamental: o que ela gerou, a própria filha. É deixada pelo marido que vai para a guerra e volta com uma concubina e ainda pede para que a trate bem. Ela o recebe com honras, acaba matando o marido e ficando com o amante, Egisto. Daí temos os ingredientes para muitas histórias que ouvimos hoje, mesmo com as diferenças de tempo e cultura.”

Fedra

Amor impossível, paixão como doença

Teseu está ausente em uma de suas aventuras e sua esposa a rainha Fedra de Atenas, que vem de uma família cujas mulheres são “destemperadas”, como Medéia, adoece. Não se alimenta, não se banha, não fala, delira e quer morrer. Seus males vêm de Afrodite. A deusa inspirou-lhe louca paixão por seu casto enteado Hipólito, devoto de Ártemis, que é casta e virgem. Ela tenta manter esse amor o mais escondido possível, mas acaba confessando à ama que o motivo de sua doença é a paixão por Hipólito. No intuito de ajudar, a ama conta ao rapaz. Ele diz horrores e ela opta pelo suicídio para fugir da vergonha. Entretanto, Fedra deixa a Teseu uma carta dizendo que se matou por não conseguir viver com a desonra por Hipólito ter tentado violentá-la. Ele amaldiçoa o filho, que acaba morrendo.

“A questão do homem muito ausente também deixa brechas no comportamento feminino. Neste tema, algumas questões são levantadas, como a ocorrência de uma mulher madura se apaixonar por um jovem e as artimanhas que ela usa para sair dessa história, mas levando junto quem a desprezou, além das dores de amores, até mesmo platônicos”, argumenta a jornalista.

Dejanira

O esvanecer da juventude e o ciúme que consome

Esposa dedicada, Dejanira consome-se em preocupações por Héracles, sempre envolvido com alguma façanha. Quando jovem, sua beleza a fez disputada por muitos pretendentes, todos vencidos pelo herói. Mas agora ouve dizer que Héracles trará com ele uma jovem princesa, pela qual destruiu um reino. Ao ouvir essa história, ela se recorda de ter um filtro amoroso e unta um manto com o preparado. Quando Héracles veste-o, provoca queimações tamanhas que ele faz uma pira e pede para atearem fogo. Ao entender o que fez, Dejanira também se mata.

“Essa mulher de meia idade se vê ameaçada no âmbito amoroso. Ela vê sua juventude e beleza indo embora, bem como corre o risco de ficar sem o homem que ama e ao qual dedicou sua vida e, muitas vezes, acaba tomando atitudes exacerbadas.”

Medéia

Poder e magia a serviço do masculino

Jasão vai para a terra da princesa bárbara Medéia em busca do velocino de ouro (pele de carneiro cuja lã vale ouro). A princesa é poderosa e versada em magia, mas, inspirada por Afrodite, apaixona-se por Jasão. Assim, trai a pátria, a família e tudo o que lhe é mais próximo para ajudá-lo a vencer os desafios, roubar o velocino e consolidar seu valor heróico. Parte com ele para Grécia. Algum tempo depois, Jasão decide repudiá-la. E ela mostra sua verdadeira índole e mata a rival, o pai da rival e os próprios filhos.

“Toda a angústia que vive Medéia mostra o que pode acontecer a uma mulher, quando poderosa, coloca todo seu poder em função do masculino e se sente traída. Isso dá muito pano para manga de discussão”, finaliza Cristina.

• Serviço

Informações sobre o curso “Feminino e paixões no mito grego”, de Cristina Rodrigues Franciscato, podem ser obtidas pelo telefone (14) 3223-5586.