08 de julho de 2026
Cultura

Kurt: o homem e o mito

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

A coisa havia saído do controle há muito tempo. Ser famoso, dar entrevistas, ser idolatrado no mundo todo por uma legião de garotos com camisas de flanela amarradas na cintura não estava nos planos de Kurt Cobain, líder do Nirvana, a maior banda de rock da década de 90.

No início de abril de 1994 seu sofrimento acabou com um tiro na cabeça. Seu corpo foi encontrado na estufa de sua casa em Seattle, no dia 8 daquele mês, ao lado de um bilhete de despedida no qual afirmava não suportar o peso da fama. “O pior crime que eu posso imaginar é enganar as pessoas, sendo falso e fingindo que estou me divertindo cem por cento”, escreveu.

A polícia estima que ele tenha morrido entre os dias 5 e 6 de abril. Kurt havia fugido de uma clínica de recuperação para usuários de drogas em Los Angeles na semana anterior e ido para Seattle sem avisar ninguém. Estava sozinho.

Kurt Cobain parece ter sempre vivido sozinho, mesmo quando esteve cercado de gente. E nos últimos anos de sua vida ele esteve rodeado de muita gente. Quando o álbum “Nevermind” foi lançado, no dia 13 de setembro de 1991, sua vida mudou radicalmente.

Até então o Nirvana, que ele integrava ao lado de Dave Grohl e Krist Novoselic, havia gravado um álbum quase amador, “Bleach”, dois anos antes. O grupo chegou a excursionar pelos Estados Unidos e Europa, vendendo 35 mil cópias do disco. “Nevermind”, hoje considerado um clássico absoluto, vendeu 10 milhões de cópias e catapultou o Nirvana ao estrelato.

O grupo engrenou uma seqüência interminável de shows pelo mundo e a vida de Kurt entrou numa ciranda que só terminaria naquela estufa, da qual nunca sairia vivo, como explica o jornalista Charles Cross em seu livro “Mais Pesado que o Céu”, biografia do cantor. Kurt havia injetado uma dose absurda de heroína na veia antes de pegar a arma que o matou. A overdose era questão de tempo.

O vício pela droga - que quase o matou durante uma turnê pela Europa meses antes do fim - nunca foi vencido. O casamento com a cantora Courtney Love (que até hoje não se encontrou na vida) e o nascimento da filha Frances também não o ajudaram. Kurt era depressivo, “sensível demais”, como se auto-descreveu no bilhete de despedida, não só não via graça nos shows, como não curtia o mundo do música. Não gostava de se vestir especialmente para aparecer na televisão, não tinha a menor vaidade mas tinha o que muitos procuram em vão: talento.

Compositor nato, Kurt colocou em suas letras toda a sua angústia e, até certo ponto, expressou a falta de rumo que muitos sentiam naquele momento.

A ironia é que sua morte, que esta semana completa dez anos, o transformou em tudo o que nunca quis ser. Na última década, depois daquele dia de abril que chocou os amantes do rock no mundo todo, o Nirvana acabou, mas três álbuns do grupo surgiram do baú dos seus remanescentes e mais uma caixa deve chegar ao mercado este ano.

Filmes foram feitos e dezenas de livros foram escritos sobre o grupo e sobre o cantor, tentando decifrar sua vida, seu sucesso e sua trágica morte. Existem até teorias conspiratórias que dizem que Kurt foi assassinado a mando da esposa - nada fundamentado, claro. Nas bancas, os meses passam e a quantidade de posteres sobre o ídolo não pára de aumentar.

O fato é que o mito de Kurt cresce a cada dia e não só por sua música. O Nirvana é influência direta de grupos que ainda estão em atividade como o Queens of Stone Age, Foo Fighters (de Grohl) e o Weezer, entre outros, mas a presença da banda vai além do som. O trio também foi a banda que fez a ponte entre o amador e o profissional, o business e o alternativo. Kurt Cobain ficou perdido nesse meio e acabou sendo o último dos roqueiros rebeldes. No seu caso, talvez com causa.