Legenda na camiseta de universitária consagra o velho dito popular no seio da cultura. “Viracopos, mais güenta firme!”. Versão da performance dos companheiros... da canjebrina. Legendas que lembram enigmáticos gestos da política nacional. Pra bebum nenhum botar defeito... Prefeitos petistas estavam reunidos em Brasília com justas reivindicações contra a sanha federal centralizadora dos recursos públicos quando Zé Dirceu pediu a palavra. Discursou por mais de meia hora. Ameaçou adversários que “namoram o perigo” quando tentam desestabilizar o governo. Acusou a oposição de pretender explorar o episódio Miro Diniz e antecipar a sucessão presidencial de 2006. Declarou, com ênfase, não haver divergência entre ele e o ministro Antônio Palocci. Advertiu que não deixará nada sem resposta e vai colocar os “pingos nos is”. Amém...
Colocava, com sua arenga, na alça de mira, dois adversários principais: a esquerda do PT e Valdemar da Costa Neto, o Boy, presidente do aliado PL. A esquerda do PT pedira, há dias, em manifesto ambíguo, a mudança de rumos da política econômica. Convocaram para São Paulo, o seminário, Valdemar Boy do partido do vice-presidente José de Alencar pedira de forma enlouquecida, em entrevista no interior do Palácio do Planalto, a demissão do Ministro Palocci por “incompetência”. O PMDB, incorporado por Zé Dirceu à base de sustentação parlamentar do governo Lula, como salvador da pátria, realizara Convenção Nacional, reelegendo como presidente do partido, Michel Temer, chamado de “independente”. Na Convenção, foram sintomáticas as estrondosas vaias dos militantes a José Sarney e a Renan Calheiros, braços direitos de Lula no Congresso Nacional. As eleições municipais aproximam-se. Ratazanas começam a querer fugir do barco que ameaça afundar...
Mais surpreendentes e enigmáticos, foram os gestos prudentes das lideranças tucanas. Malan vem tecendo, há muito tempo, elogios semanais à continuidade da política econômica do governo Lula. José Serra, presidente do PSDB, ameaçou ficar excitado com o episódio Miro Diniz. Fernando Henrique mantém-se discreto e afastado da excitação dos oposicionistas. Lideranças tucanas poderosas no Congresso vieram em socorro e na defesa da política econômica de Antônio Palocci e sua equipe. Em palestra, na Universidade Israelita da Saúde Albert Einstein, em São Paulo, Fernando Henrique apenas beliscou com sutileza weberiana. Criticou a tese que os fins justificam os meios, como “moralmente inaceitável”. Aplaudido de pé ganhou saudação de um espectador: “A palavra é saudade!” A estratégia de não fazer marola parece dar certo. Na terra de cego quem tem um olho é rei...
Decifra-me ou te devoro! A base do governo anuncia um festim antropofágico, uns devorando os outros. A oposição tucana defende a parte frágil do governo: a seriedade da política econômica de Palocci e sua equipe. Lula até que começou o ano esperançoso. Quis engatar novo papo para novo ano. Ficou mudo e basbaque quando o mundo começou a desabar sobre sua cabeça. A recessão de 2003 chegou ao grande público. A queda da renda do trabalhador bateu recorde histórico. O desemprego acelerou como jamais. A estagnação dos investimentos assombra a política econômica. Desaba como um raio devastador o episódio Miro Diniz. A paralisia do governo revela que o rei está nu...
Empresários perdem a calma, com o lero-lero das reuniões do Conselhão. Com humor, contam que há uma notícia boa e uma notícia ruim no cenário nacional. Notícia boa: o governo Lula acabou. Notícia ruim: vai levar três anos para deixar o cargo... “Nóis trupica, mais nóis num cai...”
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.