26 de maio de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: A história do urubu


| Tempo de leitura: 4 min

“No dia 28 de abril de 1994, numa sexta-feira, eu e meus amigos de quartel Osmani, Vilson, Bergamachi, Frankilim e o amigo civil Flávio Reis fomos fazer uma pescaria no rio Miranda, no pesqueiro ‘Chapema’. Saímos às 5h de Bauru e 12 horas depois já estávamos em Miranda, sendo que na nossa chegada fomos alertados que tinha chovido muito na região e que a estrada que levava ao pesqueiro estava intransitável, aliado ao fato que o rio Miranda estava barrento e transbordando.

Como já estava entardecendo, resolvemos pernoitar no Hotel Brasil, em Miranda, pois estávamos muito cansados, sendo que no sábado nós resolveríamos o que fazer. No sábado, após o café da manhã, resolvemos procurar um pesqueiro ao redor da cidade, mas a procura foi em vão pois o rio estava realmente muito cheio, não havia condições de acamparmos em sua margem. Como perdemos o dia nessa procura, resolvemos regressar ao hotel e, no domingo, decidir se ficaríamos ou se voltaríamos para Bauru.

Na manhã de domingo, 1 de maio, levantei cedo e, como de costume, liguei a televisão do hotel para assistir a Fórmula 1, ou melhor o Ayrton Senna, e ali fiquei concentrado fanaticamente torcendo para o meu ídolo. Pouco tempo depois, veio a tragédia. Não me esqueço da aflição e a amargura na espera da notícia do acidente, não agüentei mais, fui acordar os companheiros e contar a eles sobre a tragédia. Também não esqueço o que o Vilson meio sonolento me disse: ‘O compadre, você vem me acordar com essa conversa boba?’, não respondia nada, mas ele e meus companheiros perceberam a veracidade da notícia por causa dos gritos e choro do pessoal do hotel. Para não alongar mais o assunto, a comoção que houve em Bauru, no Brasil, também foi igual na cidade de Miranda. Nem me lembro se fizemos alguma coisa naquele fatídico dia, só sei que o dia inteiro e à noite assistimos à repercussão da tragédia.

Na segunda-feira, aborrecidos mas conformados, resolvemos tentar chegar até o pesqueiro Chapema, a fim de verificar as suas condições de uso, tendo em vista que o rio Miranda estava baixando. Ao chegarmos lá, por volta das 15h, notamos que havia muitos pescadores acampados no local, isso porque estava acontecendo aquele ‘fenômeno’ que só existe nos rios pantaneiros, pois estava subindo uma grande ‘cabeceira de piaus’, eram tantos os peixes que várias caravanas já estavam indo embora, pois seus freezeres estavam lotados.

Como não levamos a nossa ‘traia’, ficamos assistindo o pessoal fisgar os piaus na barranca do rio e na vazante ali existente. Nesse dia, conhecemos um piloteiro de nome Pitoco se oferecendo a ser nosso piloteiro, pois segundo ele estava pegando muito pintado no anzol de galho. De imediato, nós o contratamos. Ficou acertado que ficaríamos hospedados no hotel e todos os dias nós iríamos de carro até o pesqueiro a fim de pescar os piaus.

Naquela tarde, eu permaneci a fim de pescar pintado à noite com o nosso piloteiro Pitoco. Pescamos a noite toda e o resultado foram seis belos pintados e um grande dourado.

Quando os companheiros chegaram no dia seguinte e viram a ‘peixada’ foi a maior alegria! Contentes, foram pescar os piaus, enquanto eu e o Pitoco, após comermos alguma coisa, fomos descansar, pois à noite iríamos enfrentar novamente os bigodudos. E assim foi feito. Os companheiros voltaram a Miranda e eu e Pitoco fomos pescar, sendo que na noite pegamos menos pintados, porém maiores. No dia seguinte, com a chegada dos companheiros, eles já foram pescar, e com a rotina e a paz do pesqueiro veio o ‘incidente’.

O Berga estava pescando com duas varas. Foi quando ele pegou um belo piau. Rapidamente jogou a outra vara em cima do barranco, pois não queria perder o enorme peixão. Após dominar o peixe, foi colocá-lo no samburá, quando viu um urubu tentando voar com a sua outra vara, eu explico: o urubu engoliu o anzol que tinha como isca fígado de boi azedo, aí foi aquela bagunça. O Bergão correndo atrás do urubu que não conseguia alçar vôo. Aí veio ajuda dos outros companheiros até que o grande pássaro foi dominado e com cuidado tiraram o anzol da ‘goela’ do bicho e o devolveram à natureza.

Bom, aí que veio o pior! Começou a gozação no pesqueiro: ‘Ei, Bauru já pegou outro urubu, hei, é proibido pescar urubu!’ etc., etc., etc...

E tudo que é demais cansa e enerva, enfim, gozação demais dá briga, e foi o que aconteceu. O Bergão, já pelo nome imaginam o tamanho dele, ficou bravo, e aí queria pegar todo pesqueiro no ‘tapa’. Foi duro controlá-lo, mas isso foi possível, só que, infelizmente, a pescaria acabou para o grupo. No dia seguinte, retornamos a Bauru e em toda viagem ninguém foi louco de tocar na história do urubu.

Deixo aqui um grande abraço a esses meus amigos e a minha saudade do meu querido ídolo e herói ‘Ayrton Senna do Brasil’.”

Sergio Andrade Moreira é pescador e contador de histórias.