Muitas vezes a imaginação nega aos poetas as exatas expressões de que carecem para se expressar sobre o amanhecer e o anoitecer dos dias que lhes chegam e lhes cercam. Então, nem sempre possuem condições para dizer, em prosa e bem menos em verso, como realmente os dias divisam diante de si. Deixam, por isso, que tudo aconteça sem que possam registrar em seus pensamentos e passá-lo para frente, como o fazem, em seus órgãos de comunicação, os repórteres e jornalistas em geral. Há ocasiões, porém, em que o conseguem, mencionando-o por isso com o carinho que trazem na cabeça, no coração e na alma. Tem-se muita gente assim, altamente inspirada e desinibida, como o poeta Jorge de Lima quando, superando os óbices, escreveu “que os mais puros poemas brotam através dos nossos olhos, através dos nossos peitos e, através dos nossos pés, ultrapassam o que lhes possam sugerir os meridianos da Imortal Trindadeâ€. Teria estacionado aí a sua inspiração se ele não tivesse ido além profetizando, assim, o declínio do dia: “As sombras alongam-se no chão poeirento. Cai a tarde. Chegam os seres à aldeia da vida e ficam ali porque os campos estão esmaltados de flores e as torrentes precipitam seus jorros por entre encostas de esmeraldasâ€. Até que poderia ser assim, de forma tão cativante, o declínio da paisagem que temos diariamente à nossa frente, mostrando que o tempo não pára, não descansa, acontecendo através dos dias e noites, aqueles feericamente iluminados por esplêndidos raios solares e, as outras, escondendo-se em meio à escuridão das nuvens. Mas não o é, pois nem todos os dias terminam unicamente para si. Muitas vezes terminam também para milhões de seres viventes. E há poetas, como o velho Malherbe, que não o esconde, transmitindo-o às flores, escrevendo: “E a rosa? Ela vive o que vivem as rosas: o espaço de uma manhã!†Enquanto isso, o vate Peguy manifesta: “Felizes os que morrem numa guerra justa. Felizes as espigas maduras e os trigos colhidos... Só Deus conhece o dia e a hora de cada umâ€. Enquanto isso, dilacerados, desarvorados, despojados, temos de continuar a viver, realizando a tarefa que nos coube na economia do universo, sem a pretensão de seguirmos toda as pegadas do dia... É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado). “Cada lágrima que se enxuga torna alguém mais feliz! Em cada ato de fé se canta um hino à vida! Em cada sorriso que se espalha lança-se alguma esperança! Em cada espinho que se finque se machuca algum coração! Em cada espinho que se arranque alguém beijará nossa mão†- Roque Schneider