08 de julho de 2026
Auto Mercado

A lenda do tanque 'vazio'

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Combustível caro e dinheiro curto. O resultado desta “fórmula” é um só: carros rodando com tanques cada vez mais vazios e próximos da reserva, um hábito condenado por muitos, mas que, na prática, não justifica-se. “É mais uma lenda do universo automotivo”, garante Marcos Roberto Bormio, engenheiro mecânico e professor da unidade bauruense da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Segundo Bormio, o fato de um carro andar continuamente com tanque “baixo” não é capaz de causar problemas mecânicos ao veículo. “Rodar com pouco combustível não interfere em nada. O motorista só corre o risco de parar na rua e tomar uma multa por isso”, afirma o docente, referindo-se à legislação de trânsito.

O engenheiro explica que a origem da “lenda” reside na possibilidade de sujeiras acumuladas no fundo dos tanques serem transmitidas aos sistemas de alimentação dos veículos - injeção eletrônica ou carburador - quando se anda na reserva, provocando falhas de rendimento. “Tecnicamente, não é para o automóvel ter problemas com isso, pois há filtros que devem impedir a passagem de substâncias estranhas”, diz.

Por essa razão, Bormio esclarece que, normalmente, os veículos não devem apresentar qualquer espécie de detrito no tanque. No entanto, ele ressalta ser possível que o combustível se contamine com elementos nocivos e, conseqüentemente, gere danos mecânicos. Segundo o engenheiro, há três principais causas para que isso ocorra.

A primeira delas pode ser a deficiência dos equipamentos de filtragem dos postos de abastecimento. “Neste caso, se o tanque de armazenagem estiver contaminado e os filtros que os estabelecimentos possuem não funcionarem adequadamente, o veículo receberá combustível sujo”, afirma. A segunda é a adição voluntária de alguma substância que provoque falhas no desempenho do carro.

A terceira e última é uma corrosão, que provoca descamação no tanque. Entretanto, acrescenta Bormio, tal hipótese, a exemplo das anteriores, não ocorre com freqüência. “Principalmente após a gasolina receber álcool, que é mais corrosivo, na composição, as montadoras reforçaram os revestimentos internos do equipamento para evitar avarias do gênero”, conta o engenheiro.

Mesmo manifestando-se raramente, a corrosão no tanque pode ser facilmente verificada pelo proprietário do automóvel. Segundo o professor, os indícios de que o componente está com problemas são os constantes entupimentos de filtros, marcha lenta irregular e idas constantes à oficinas para limpezas de injeções eletrônicas ou carburadores.

Entretanto, em qualquer destas situações-problema, a verdade é clara: as falhas no desempenho do automóvel surgirão independentemente da quantidade de litros existente no tanque. “Eles irão se manifestar esteja o tanque cheio ou vazio, e não com ele apenas na reserva”, adverte Bormio.

O docente da Unesp lembra que outro dano comumente associado ao hábito de andar com o tanque na reserva, a queima de bombas de combustível, também não se justifica. “Estes componentes são projetados para trabalhar em qualquer situação, até mesmo nas mais críticas e com pouco combustível”, defende Bormio.

Para o engenheiro, a bomba, que trabalha imersa no combustível, pode até ser beneficiada quando se roda prioritariamente com o tanque cheio. “Como ela irá operar em temperaturas menores, vai ganhar uma sobrevida. Mas isso não quer dizer que, se ela atuar somente com o nível dos líqüidos na reserva, será prejudicada”, pondera Bormio.

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Evite a 'boca' cheia

Se o motorista não tem motivos para se preocupar quando o nível do tanque atinge a reserva, a atitude deve ser outra na hora de enchê-lo. Isso porque, conforme enfatiza o engenheiro mecânico Marcos Roberto Bormio, da Unesp/Bauru, a afirmação de que nunca se deve completar o tanque até a “boca” nada tem de “lenda”.

Bormio explica que o tanque deve ser abastecido somente até o momento em que o mecanismo de desligamento automático da bomba de combustível é acionado. “É sinal de que ele já está cheio. Por isso, se o frentista pedir para arredondar o valor, permita que seja uma pequena quantidade. Insistir em adicionar mais álcool ou gasolina que este limite é dor de cabeça na certa”, garante.

O engenheiro esclarece que há cinco razões para se evitar a colocação adicional de combustível. A primeira é que o pretenso aproveitamento extra chega a, no máximo, 1,5 litro, quantidade que corresponde às tubulações existentes para que os líqüidos cheguem ao tanque. “Aproveitar este caminho não compensa, pois será desperdiçado rapidamente”, frisa.

Bormio explica as razões para isso ocorrer. Segundo o professor, um veículo abastecido nestas condições será “vítima” de vazamentos devido à dilatação do combustível provocado pela temperatura externa. “Basta a lataria do carro aquecer”, orienta. Desta forma, além de perder a litragem extra e o dinheiro que a mesma custou, o dono do automóvel terá de aguentar o odor exalado pelo combustível vazado.

Outro problema que o abastecimento inadequado provoca, conforme o engenheiro, é a danificação do cânister do motor, componente que serve como uma espécie de filtro dos gases gerados durante a combustão. “Desta forma, os gases começam a entrar na linha de alimentação, gerando falhas de rendimento”, conclui Bormio.