08 de julho de 2026
Articulistas

SOS Saúde!


| Tempo de leitura: 3 min

Houve época em que o mundo da medicina era envolto em humanidade e competência. Além de exercer a profissão para a qual apresentava vocação e de prestar um importante serviço de utilidade pública, o médico tinha uma relação muito próxima com o paciente. Seu trabalho era reconhecido e recebia a devida valorização.

Sempre existiram problemas, é verdade. No entanto, jamais chegaram à proporção dos que enfrentamos hoje. A falta de políticas públicas responsáveis e consistentes, a ganância de certos empresários da saúde privada, a irresponsável proliferação da abertura indiscriminada de novas escolas de Medicina e a indefinição legal do papel do médico fazem com que, neste início de século 21, a profissão passe pela maior crise de sua história.

O Conselho Federal de Medicina apresentou, dias atrás, os resultados da “Pesquisa sobre Qualificação, Trabalho e Qualidade de Vida do Médico”. Os números são preocupantes. Dos 14.405 profissionais que expressaram suas opiniões, 55,4% revelam ter mais de três empregos e 62,2% aumentaram a carga horária nos oito últimos anos. Apesar dessa sobrecarga desumana, 51,5% recebem até US$ 2 mil. Parece muito dentro do atual quadro de proletarização dos brasileiros? Pois é necessário deixar claro que vários cumprem jornadas de 60, 70, 80, 90 ou mais horas semanais para garantir essa remuneração. Mais alguns dados sombrios da pesquisa: 52,6% dos médicos apontam piora nas condições de trabalho no Sistema Único de Saúde (SUS), 47,4% na qualidade, e 40,7% nos serviços oferecidos aos brasileiros (...)

É para corrigir esta distorção inadmissível que os profissionais de medicina brasileiros lutam neste momento pela implantação da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) no sistema suplementar. Duas são as questões envolvidas no movimento pela implantação da CBHPM: a valorização do trabalho médico e a melhoria do atendimento aos pacientes (...) Os problemas para o exercício da medicina, enfim, se avolumam de forma jamais vista. A abertura indiscriminada de escolas médicas sem condições de formar bons profissionais agravou-se nos últimos anos. De 1996 a 2003, foram criados 37 novos cursos, apesar de pareceres contrários do Conselho Nacional de Saúde e das entidades médicas.

Um profissional com formação insuficiente é um risco no atendimento e gera, ainda, o aviltamento das condições de trabalho. O Brasil tem um médico para cerca de 600 habitantes, muito além da relação preconizada como ideal pela Organização Mundial de Saúde: um para 1.000. Portanto, não precisamos de mais profissionais de medicina, é necessário distribui-los (...)

Dias atrás, uma autoridade de Brasília explicou os motivos que levam órgãos federais a gestar mudanças no sistema de revalidação de diplomas de médicos formados no Exterior, para liberar da prova os profissionais de Medicina graduados em Cuba. Explicou para um dos mais importantes veículos de imprensa do Brasil que as razões eram políticas e ideológicas. Sua conclusão: “O presidente Lula é amigo de Fidel”. Não é improvável que esta autoridade tenha falado sem o aval do presidente. Talvez seu objetivo fosse até falar algo bem diferente... Quem sabe? Fato é que esta é mais uma gota d’água num sistema de saúde em que novos problemas transbordam diariamente. (O autor, Clóvis Francisco Constantino, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo)