Segundo a tradição ocidental dominante, o mundo existe para beneficiar os seres humanos. Deus concedeu aos seres humanos o domínio sobre o mundo natural, e a Deus importa como nós o tratamos. Os seres humanos são os únicos membros moralmente importantes neste mundo. A própria natureza carece de valor intrínseco, e a destruição das plantas e dos animais não pode ser um pecado, exceto se nessa destruição forem prejudicados os seres humanos.
Este foi o pensamento da corrente majoritária do cristianismo, durante pelo menos os 18 séculos iniciais. Em sua obra máxima, a “Summa Theologica”, Tomás de Aquino seguiu ao pé da letra Aristóteles que considerava a natureza como uma hierarquia na qual os menos dotados de capacidade de raciocínio existiam para benefício dos mais dotados. Está no Gênesis (1:26-28) - “E disse Deus, façamos o homem à nossa imagem e semelhança: e que ele tenha domínio sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre o gado e sobre toda a Terra, e sobre todos os seres que rastejam na terra.”
Há quase 50 anos, o ecologista americano Aldo Leopold escreveu (Vida Ética, de Peter Singer, Ediouro) que havia a necessidade de uma “nova ética”, uma “ética para lidar com a relação do homem com a terra e com os animais e plantas que nela crescem”. Sua proposta ética iria ampliar “os limites da comunidade para incluir o solo, a água, as plantas e os animais, ou, coletivamente, a Terra”. A ascensão da consciência ecológica no começo dos anos de 1970 levou a uma renascença dessa forma de pensar que está dominado o mundo. O bem-estar e o florescimento da vida humana e não-humana na Terra têm valor em si mesmos (sinônimos: valor intrínseco, valor inerente). Esses valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para objetivos humanos.
Empregamos a palavra “animal” para significar “animais que não os seres humanos”. Este uso coloca os humanos à margem dos outros animais, implicando que nós mesmos não somos animais - uma implicação que reconhecerá como falsa qualquer um que tenha freqüentado aulas elementares de biologia. Mas dirá alguém com muita razão: “Os não-humanos são incapazes de raciocinar” e eis aí a grande diferença que nos autoriza a dispor deles como bem desejarmos. Mas uma criança de um dia, uma semana ou um mês de idade não é mais sociável ou capaz de raciocinar do que um cavalo ou um cão adulto. Esse argumento foi usado por Jeremy Bentham no início do século para poder assinalar a capacidade de sofrimento como sendo a característica vital que confere a um ser (racional ou irracional) o direito à igual consideração.
A realidade deste fato é o que pressupõe, na maioria dos países civilizados, as leis que proíbem a crueldade contra os animais. Como pode se sentir feliz uma onça confinada num compartimento gradeado de 2 m x 4 m quando é de sua natureza viver livre na selva? O cavalo de Beto Carrero viaja de jato sob ar condicionado, come aveia, alfafa e cenouras. Seria demagógico dizer que 30 milhões de brasileiros não têm nem isso para sobreviver. Teríamos então que esperar acabar a fome no mundo para depois começar a tratar bem os animais irracionais. Mais irracional, digna de corar as gerações futuras, foi o casuísmo de remendar uma lei às vésperas do início de uma temporada de espetáculos para permitir que leões, tigres, onças e macacos continuem confinados em jaulas e sob o chicote do domador. Um circo. Agora se sabe que compartilhamos 98,4% de nosso DNA com os chimpanzés, o que é uma diferença genética muito pequena. Essa diferença é bem menor que a registrada entre espécies diferentes de macacos como o chimpanzé e o orangotango. Ou seja, somos nós - e não os gorilas - os parentes mais próximos dos chimpanzés. Cuide bem do seu irmão. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)