11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Artigo: Quem tem medo do pequeno varejo?


| Tempo de leitura: 4 min

Muitas vezes, o pequeno varejo é desprezado por alguns grandes fornecedores. Essa falta de percepção pode custar caro no mercado.

É um trabalho de formiguinha. Centenas de pequenas lojas para visitar e pedidos conta-gotas. Um produto aqui, três ali... Parece não compensar, mas atender o pequeno varejo é fundamental para a estratégia de marketing de uma companhia.

Muitos vendedores e até empresas desprezam esse nicho de mercado pelo baixo volume e enorme esforço para cobrir determinada região. Em minha experiência de 20 anos, atendendo grandes e pequenos clientes, aprendi que existem muitas vantagens em estar próxima das lojas de bairro. Em primeiro lugar um paradoxo.

É possível, sim, fazer volume com uma série de pequenos pedidos. Claro que dá mais trabalho. Entretanto, nesse tipo de loja o dono, em geral, está atrás do balcão e conhece bem seus consumidores. Eles detêm informações valiosas de comportamento, hábitos de consumo, necessidades e perfis psicológicos do cliente final. Informações que valem ouro. Agências de pesquisas gastam fortunas e tempo para conseguir obter justamente esse tipo de dado que podemos coletar gastando alguns minutos de conversa em cada ponto de venda.

A proximidade do comerciante com o cliente favorece na percepção do que o público realmente quer comprar. A cor de meus produtos agradam? O concorrente está com preço melhor? Por que o cliente escolheu uma marca em detrimento da outra? Quais as vantagens e desvantagens percebidas em cada uma? O vendedor precisa deixar de lado a mania de enxergar apenas um cifrão no rosto do cliente, afinal, está lidando com gente. Que tal perder um tempo conversando com ele?

Convide-o para um cafezinho no bar da esquina. Tire o cliente do seu espaço físico. Procure deixá-lo à vontade para falar - bem e mal - de seus produtos. É preciso ter amor pelo seu cliente, fidelizá-lo. Por outro lado é nesse tipo de comércio que podemos exercitar nossas reais habilidades de consultoria de vendas. Você tira pedidos ou vende? Vender é uma arte e também um serviço.

Quando entro numa loja, seja lá qual for o porte dela, a primeira coisa que observo é o cheiro que a loja tem, depois a iluminação, a música que está tocando, a exposição dos produtos, as gôndolas, as prateleiras externas e as que ficam atrás do balcão. Enfim, uma loja tem que agradar o consumidor. Ele tem que se sentir aconchegado. Procuro meus produtos e vejo se estão bem expostos e quantos itens foram vendidos. Depois checo essa informação com o estoque. Se possível, converso com algum cliente que esteja escolhendo um artigo. Pergunto se gostou deste ou daquele produto. O que achou de determinada marca. Com isso sei o que está vendendo e o que não adianta tentar empurrar ao cliente.

É preciso ver se o cliente está dentro do seu foco, ou seja, oferecendo o produto certo para seu ponto de venda, para o consumidor que o procura. Ter foco é muito importante. Hoje em dia as papelarias devem ser prestadoras de serviços. Além disso, é importante analisar o pessoal contratado. Um balconista bem treinado e especializado significa 80% das vendas. Oriento meus clientes a contratar um funcionário pela personalidade e capacidade dele e não pelo baixo salário que ele ganha. Sempre vislumbrando os lucros que ele virá a dar para a empresa, bem como novos consumidores que serão fidelizados.

Meu objetivo prioritário é ajudar o cliente a vender. Só depois é que eu terei “moral” para vender a ele. Após essa pesquisa, que pode durar poucos minutos, estou pronta para conversar com meu colega de trabalho, o varejista. Sensibilidade e intuição também ajudam nos negócios. Agora, na profissão de vendas todos esses pré-requisitos são obrigatórios, independentemente do sexo. Quando comecei a trabalhar como representante de vendas meus colegas me diziam justamente o contrário: vender não é negócio para mulher.

Então, a vantagem do sexo é relativa. Esse preconceito existe de fato, mas é apenas conceitual. Com o tempo, os clientes adquiriram confiança no meu trabalho e começaram a me ver como uma parceira. Além da comunicação verbal, o ato de vender pressupõe ainda a habilidade em reconhecer a linguagem do corpo. Olhe o cliente nos olhos. Reveja sua própria postura. Não fique em posição superior, arrogante, com nariz empinado só porque você é representante de uma grande empresa e do outro lado do balcão existe “ apenas” um pequeno cliente. Esse pequeno cliente pode crescer, expandir os negócios, ampliar a loja, abrir filiais, franquias... Será que ele vai lembrar de você?

Falo em inglês, italiano e cheguei a aprender algumas palavras em japonês para me familiarizar com determinado cliente. Em resumo: atender o pequeno varejo é um ótimo negócio. Um aprendizado que vale um curso de pós-graduação. Cliente sempre deve lembrar: Foco; fidelização; especialização; reciclar o estabelecimento sempre; bom humor; não ter medo da crise e fazer dela uma oportunidade. Representante: confiança, segurança, objetividade, bom humor, otimismo, respeito ao cliente e ao concorrente.

A autora, Flávia Valentini, é vendedora, foi premiada recentemente com o título de Melhor Vendedora do Ano, no setor de papelaria.