“Todo dono de bar, independente de qual seja e de onde seja, é psicólogo. As pessoas vão ao bar não só para tomar uma pinguinha ou uma cervejinha. O que eles buscam de verdade é ouvir uma piada, contar uma história ou pedir um conselho, encontrar um amigo, transformar um estranho em conhecido. Isso é terapia!!!”, define Odil Azenha Stabile, 62 anos, que há 12 anos, completados no último 1 de abril, abriu um bar em Bauru, que ele considera a extensão da sua casa.
Ele conta que escolheu ficar atrás do balcão justamente por gostar de falar e ter facilidade para lidar com as pessoas e suas histórias de vida e, é claro, a oportunidade de ter muitos, mas muitos amigos.
“O bar é um lugar de alegria e de tristeza, enquanto um vem comemorar, o outro vem chorar as mágoas e a gente tem que estar disposto a ouvir, dar conselho, tratar com carinho, ser pai, amigo, irmão”.
Para o dono de bar, o tratamento é o ingrediente essencial para cativar a clientela.
“Hoje o meu bar deixou de ser boteco, hoje tem famílias inteiras que se reúnem. Tem pai e filho, vô e neto e virou a casa de todos os estudantes. Uma casa com pai e mãe”, comenta Stabile, que é conhecido como “seu Odil”.
A dona desta casa, Rosa Maria de Pontes, 52 anos, confessa que principalmente a turma mais jovem que freqüenta seu bar, com o tempo, que não precisa ser muito, aproveita para pedir colo, conselho, chorar as mágoas e até pedir para que ela faça uma comidinha de mãe. Ela conta que por muitas vezes preparou polenta, arroz com feijão, dobradinha, vaca atolada (sopa de mandioca com costela) e distribuiu para a sua “filharada” que sempre reclamava por passar a lanche e sentir falta do tempero de casa.
“Para eles, era a mesma coisa de estar em casa. Agora, conselho, se fosse bom, a gente não dava, vendia. Mas eles chegam aqui, desabafam, ouvem uma opinião e saem reconfortados”, revela Rosa.
Mas o que mais conforta a comerciante “mãezona” é o fato de boa parte desses filhos acabar vindo visitá-la mesmo depois de terminar os estudos e voltar para a cidade natal.
“Tem um deles, o Otávio Valle, o Tatau, que é fotógrafo em um jornal em São José do Rio Preto, que veio num domingo de bar fechado para passar o dia com a gente. Esses dias encontrei um bilhete que ele nos deixou quando foi embora, dizendo que nós éramos os pais de Bauru. O Junião cartunista é outro que trouxe até a namorada para a gente conhecer. Fora eles, tem a Priscila, que foi para os Estados Unidos trabalhar nas torres gêmeas (World Trade Center) e nunca esquece da gente. Tem um rapaz que se formou em odontologia, se casou, já tem filhinho e toda vez que vem a Bauru vem me visitar. Eles vão, mas voltam. Isso é o que compensa.”
Questionamentos
A psicóloga e professora do curso de psicologia da Unesp Alessandra Turini Bolsoni afirma que a prática não é reconhecida pela psicologia, mas é notório que muita gente usa bares e cafés como refúgio.
Numa opinião particular, ela aponta que é difícil avaliar se esse comportamento é bom ou ruim. Observando por exemplo o caso do decorador Paulo Keller, a prática parece trazer mais benefícios do que algo prejudicial.
“Agora, isso é diferente das pessoas afogarem as mágoas em um copo. Cada caso é um caso e isso não pode ser avaliado de uma forma geral. As pessoas vão a um bar por razões diferentes e têm comportamentos e reações diferentes também”, comenta.
Ao mesmo tempo, a psicóloga diz que se o único momento de uma pessoa encontrar amigos é nessa ida ao bar, por que não fazê-la?
“Mas se de um lado ela vai ao bar para evitar problemas, isso é ruim, pois os problemas precisam ser enfrentados”, adverte Alessandra.
A psicóloga alerta também para o perigo de uma pessoa se abrir para um desconhecido e este acabar usando informações de maneira indevida.
O ambiente de um bar também pode não ser adequado para o desabafo. Afinal, o volume da voz precisa ser controlado, os gestos, as atitudes, bem como as reações e até os estímulos vindos de música que mexa com os sentimentos, o reencontro com pessoas queridas e outras nem tanto e até as provocações.
Em geral, quando as pessoas compartilham o que sentem, elas ficam. Nesse sentido, desabafar traz benefícios quando quem desabafa sente-se aliviado.
Agora, quem precisa de um ombro amigo deve estar são para saber os seus limites para quem vai falar, o quanto vai alugar a pessoa.
“Desabafar é importante desde que se encontre uma pessoa ideal, que lhe ouça, dê conselho e ajude a resolver o problema. Você não pode alugar a outra, não pode trazer mais problemas para ela”, diz.
Por outro lado, somente ouvir não é suficiente. O amigo escolhido como terapeuta precisa interagir.
“O interlocutor tem um papel importante, ele é um mediador dessa interação e tem que dar pistas para a pessoa. E se for o caso, mostrar o quanto está incomodado. No caso de quem só fala de trabalho, chega uma hora em que alguém na mesa precisa falar: vamos mudar de assunto? Você viram o filme tal?”, observa a psicóloga.
Obviamente, apesar de algumas pessoas precisarem de um gole para se soltar, não vai ser com bebida que os problemas serão resolvidos.
Nestes casos, a ajuda vai além do amigo e requer um tratamento profissional.
____________________
Papo de botequim
Não é bar, restaurante ou lanchonete, mas é lá que você encontra de tudo um pouco e desenvolve conversas essenciais com os amigos de infância, mesmo que os tenha conhecido ali mesmo, ainda agora. Esse padrão de comportamento foi imposto pelos galegos, apelido dos portugueses e espanhóis que traziam limões em suas vindas d’além mar!
E os tais portugueses e espanhóis se estabeleceram na cidade, ganhando as esquinas, abrindo pequenos comércios, especializados em vender cerveja, petiscos, a cachaça nossa de cada dia, além de pratos feitos e batidinhas amigas, como a caipirinha, feita com o tal limão que eles traziam na viagem.
Houve época em que havia um em cada esquina da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Hoje em dia, um bairro não tem mais do que meia dúzia dos autênticos, com sorte. Os bons botequins, sobreviventes do processo de modernização da cidade, estão firmes, fortes e repletos. Cheios de gente que não se preocupa com o colesterol, já que o torresmo e o pernil (deliciosos) não são exatamente exemplo de comida saudável.
Os primeiros botequins, segundo registros, surgiram entre 1910 e 1930, nos centros do Rio de Janeiro e de São Paulo, numa época em que já se consolidava o processo de industrialização iniciado no final do século passado. A partir dos anos 30, esse processo ganhou novo impulso e o aumento de fábricas multiplicou a população urbana, fruto de outro fenômeno social, o do êxodo rural, que se completaria nos anos 70.
Nascia então a classe trabalhadora urbana, com tempo escasso para o almoço, obrigada a usar a marmita ou comer fora. Junto com ela, floresciam os botequins, prontos a atender esta necessidade, com o também recém-nascido prato feito (PF para os íntimos).
A repetição constante de certas receitas na hora de preparar o bom PF daria origem aos chamados ‘clássicos’ da comida de botequim: caldo de mocotó, feijão amigo, frango com polenta, rabada, bolinho de bacalhau (ou batatalhau, se preferir), carne-seca com abóbora, aipim frito etc.
Atualmente, alguns botequins clássicos sobrevivem nas principais capitais do País e nas cidades do Interior, freqüentados por pessoas que gostam da boa comida, bem como trabalhadores das redondezas, e é claro pelos tradicionais boêmios, que fazem de qualquer ponto uma homenagem aos bons e velhos tempos.
(www.bolsademulher.com.br)