08 de julho de 2026
Articulistas

Gostaria de poder escolher


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Vejo com tristeza a passividade com que aceitamos tantos modelos prontos, nem sempre bem resolvidos, submetendo nossas comunidades a comer poeira, em vez de produzi-la. Algumas ousadias, alguns erros talvez, inerentes ao ato de inovar, penso serem necessários. Nossas cidades, embora abriguem muito mais pedestres, e um considerável número de ciclistas, direcionam seus modelos de trânsito quase exclusivamente em favor dos automóveis. Os benefícios que dele extraímos nos prejudicam a ponto de não vermos seus inúmeros defeitos. Alguns deles extremamente preocupantes, vale ressaltar. Em cidades de porte médio, trazem relevantes problemas de locomoção e estacionamento nas regiões centrais (basta observar Bauru, Marília ou mesmo Jaú). Em cidades maiores, são os grandes responsáveis pela queda na qualidade do ar que se respira, pelo tempo que se perde (em congestionamentos) e pela raiva que se passa. Pesquisas em todo mundo indicam que a velocidade média do trânsito nas cidades tem diminuído. Um pouco porque existe hoje mais consciência por parte dos motoristas, mas principalmente porque passam boa parte do tempo parados em semáforos ou presos em congestionamentos. A velocidade média de uma carroça que circulava pela capital paulista no século XIX é maior que a dos veículos que se empacotam nos dias de semana dessa mesma cidade hoje. Londres já cobra taxas consideráveis para automóveis que desejam ir ao centro. A Cidade do México decidiu bani-los ou racioná-los em cinqüenta quarteirões ao redor do Zócalo, que é o marco zero. São Paulo também. Algumas rodovias nos Estados Unidos, que se prestam a anéis viários, possuem faixas exclusivas para automóveis com três pessoas ou mais, prática que incentiva a carona entre conhecidos que moram e/ou trabalham próximos. Não podemos esquecer que os automóveis são os grandes vilões também no episódio do aquecimento global, lançando no ar muito mais dióxido de carbono que as indústrias do mundo somadas. Também dificultam a observação da cidade e suas interações (em função da velocidade e dos obstáculos físicos). Por fim, fomentam o sedentarismo e nos transformam em verdadeiros “homo-violentus” quando estamos dentro dele, prontos a reagir grosseiramente a qualquer movimento que nos contraria.

Gostaria de ver campanhas e multas que obrigassem a dar preferência ao pedestre nas faixas. Gostaria que calçadas (principalmente em esquinas) não fossem mutiladas para aumentar o tamanho da rua. Gostaria de ver calçadas pelo menos nos locais de maior trânsito de pedestres. Sugiro que parte do dinheiro investido nas ruas fosse destinado para a criação de ciclovias interligando zonas escolares ou bairros periféricos com zonas industriais, e que fossem oferecidos locais onde se pudesse pedalar por lazer, mas com segurança. Tenho certeza que logo teríamos um contingente muito maior de ciclistas.

Estaciona-se dez bicicletas onde se estaciona um automóvel. Ainda a magrela deixa em forma, evita doenças cardíacas, não polui, não congestiona, não faz barulho e dá muito menos despesa.

Ninguém aqui quer forçar a adoção da caminhada ou do ciclismo, até porque ambos possuem lá suas limitações e desvantagens, claro. Apenas gostaria que as pessoas pudessem optar, ter a possibilidade de escolher, de alternar, de quebrar paradigmas criados em países “desenvolvidos” e que são importados e tomados como exclusivos em nossas comunidades.

O autor, José Paulo Toffano, é coordenador regional do Partido Verde de Jaú.