08 de julho de 2026
Cultura

Estrela, Estrela

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Existem shows que são destinados a ficar para sempre na memória de quem os vê. Caetano na Ipiranga com a São João, Renato Russo homenageando Cazuza, Kurt Cobain mal conseguindo ficar em pé em São Paulo... Cada um pode ter a sua própria lista. O show que Maria Rita faz hoje à noite no Espaço Mixage tem boas chances de entrar na seleção de muitas pessoas. É a primeira vez que a cantora - o nome mais comentado da MPB atual - vem a Bauru. Por onde passa só colhe elogios.

Grávida de seis meses, Maria Rita sobe ao palco do Espaço Mixage ao lado de Tiago Costa (piano), Silvinho Mazzuca (baixo), Marco da Costa (bateria) e Da Lua (percussão) para apresentar as canções do seu disco de estréia, um sucesso avassalador de público e crítica que veio de forma inesperada para a jovem de apenas 26 anos. “Foi uma grande surpresa”, diz em entrevista que concedeu ao JC, na qual falou sobre o disco e o show.

Filha de Elis Regina e César Camargo Mariano, irmã de João Marcelo Bôscoli e Pedro Mariano, a cantora estava cercada de música por todos os lados, o que gerou a maior expectativa em torno de sua estréia profissional, que mais cedo ou mais tarde aconteceria.

O resultado não poderia ter sido melhor para ela e para o público. Raramente um (a) artista começa tão bem uma carreira. Quando acontece, todo mundo quer apontar a fórmula do sucesso. No caso de Maria Rita (cujo título desta matéria, não por acaso também de uma das músicas que interpreta, a define) a resposta pode residir em só uma qualidade, seu imenso talento.

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - O repertório do show vai além do CD?

Maria Rita - Eu canto duas músicas que não estão no CD. Uma do Marcelo Camelo que está no segundo CD do Los Hermanos e uma inédita de um compositor de São Paulo que se chama Edu Tedeschi. Faço uma brincadeira com o público, como se fosse um teste para saber se aprovaram a música.

JC – Você esperava que o seu disco fosse tão bem recebido?

Maria Rita – Não. Foi uma surpresa muito grande. A gravadora me enganou até o último dia perto do lançamento. Me disseram que iam fazer um lote de 60 mil e eu achei aquilo absurdo. Achei que deviam fazer só 30 mil. Não achava que o disco fosse vender.

JC – Por que?

Maria Rita – Pelas condições atuais. É um disco de MPB, que hoje em dia não tem muito espaço. Existia uma curiosidade mas não achei que fosse tanta curiosidade. Pensei que ia chegar na casa dos 30 mil, no máximo, depois de conversar com algumas pessoas antes do lançamento, achei que poderia chegar aos 80 mil. Existe pirataria, o mercado está difícil, os discos estão caros para o salário do brasileiro. A gravadora me enganou até o dia do lançamento do disco. A gente deu uma festa porque coincidia com o dia do meu aniversário (9 de setembro) e me deram um disco. Quando eu vi o número do lote com 100 mil eu disse: “Vocês estão malucos! Vocês estão dando a minha cara para bater!”. Eles riram na minha cara. Na semana seguinte a gente fez show no Canecão e no meio do show eles me deram o disco de ouro, ou seja, aquele lote já tinha sido vendido em uma semana. Eu me descabelei chorando. Foi um susto. Desde então a procura pelo disco e pelo show tem sido boa. Estou fazendo shows em lugares que achei que nunca iria.

JC – Você está fazendo shows no Interior antes de ter ido a todas as capitais...

Maria Rita – Eu quis jogar os shows do Interior para agora porque as viagens não são tão desgastantes. Pela lógica de mercado o ideal seria fazer as capitais primeiro, mas eu preferi fazer de outra forma para evitar o cansaço. Hoje tem duas prioridades: o meu neném e a minha carreira, que agora está voltada para os shows do disco. Eu sou daqui, eu sempre curti muito o Interior, para mim é muito agradável sair de São Paulo e ir para um lugar mais calmo, que não tenha loucura como em outra capital. Fui feliz na escolha de fazer primeiro o Interior.

JC – Quanto o disco já vendeu até agora?

Maria Rita – Até o mês passado tinha vendido 590 mil e blá, blá, blá, ou seja, quase 600 mil. É muito disco. O mais bacana é que isso é insubstituível, a conversa das pessoas que me abordam no shopping, no cinema, no camarim depois dos shows... Muita gente diz: “Muito obrigado”, me agradecem, é muito louco. Eu faço questão de agradecer o público, há uma recíproca muito grande e isso é muito forte, dá uma força para continuar porque mostra que está valendo a pena.

JC - Você sente que há um carinho especial do público em relação a você por causa do seu histórico familiar, principalmente sua mãe?

Maria Rita - É difícil saber, acho que depende. O meu público está cada vez mais jovem. Do que eu consigo ver do palco nos meus shows, o público é formado por uns 70% de pessoas da minha geração, crianças. Fiz show aqui em São Paulo outro dia e na frente do palco tinham alguns adultos com 5 ou 6 crianças em volta. São crianças, adolescentes que vão ao show com os pais. Quando termina o show eu fico um pouco no camarim e espero para ir para o carro. Sempre tem gente no portão de trás me esperando e é sempre gente mais jovem. Então não sei o que está acontecendo, não sei se o que veio primeiro foi o ovo ou a galinha e prefiro até nem saber porque está tão bacana, é tão honesto... A gente lida com arte mas existe um produto que veio desta arte, que é o CD e ninguém compra um CD porque é obrigado, compra porque quer. Eu prefiro não questionar a natureza da admiração, do carinho, do respeito das pessoas.

JC - Esse tipo de admiração causa surpresa?

Maria Rita - Devo confessar que eu me emociono em todos os shows, não há como se preparar para isso. Fiz um show, acho que em Campinas, não sei, onde aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido. Entrei no palco e a reação do público foi tal que cantei a primeira música inteira chorando. Não consegui segurar a emoção que estava sentindo de ver aquele povo. Sinto uma energia muito forte e a gratificação é gigantesca.

JC - Seu DVD também está fazendo sucesso...

Maria Rita - Graças a Deus, tenho muito orgulho daquilo lá. Fizemos tudo em dez dias, montei o show, ensaiamos, figurino, luz, cenário, equipe técnica, tudo em dez dias. É um projeto que leva três meses, no mínimo, sendo maldoso, em seis meses. Fizemos tudo em dez dias, que bom que as pessoas gostaram.

JC - O que você tem ouvido ultimamente?

Maria Rita - Ouço de tudo, de pop a MPB. Atualmente tenho ouvido muito o último disco do Seal no meu carro, também uma coleção gigantesca do Chico Buarque, Sade, que eu gosto muito, e Los Hermanos, que eu adoro.

JC - Como aconteceu seu encontro com a obra do Marcelo Camelo, pelo Tom Capone (produtor do CD da cantora)?

Maria Rita - Foi o Tom. Quando a gente estava fazendo a pré-produção do disco eu ouvia tudo com o Marco da Costa e a gente fazia audições de 8, 9 horas. O Tom também ouvia e mostrava o que achava interessante. Num dia dessas trocas de informações do “trio parada dura”, rolou o disco do Los Hermanos e eu não conhecia o trabalho, nem “Anna Júlia”, que estourou quando eu estava fora. Ele me deu o disco e fiquei surpresa. Na minha cabeça Los Hermanos era rock e pensei: “Por que Tom Capone está me dando um disco de rock para ouvir, esse homem é louco”. O Marco me lembrou que o Los Hermanos tinham gravado “Anna Júlia” e eu fiquei sem saber o que estava acontecendo. Mas o CD era o segundo (“Bloco do Eu Sozinho”) e quando ouvimos achamos muito bom. Tem uma coragem muito grande no trabalho deles. Eles fizeram um sucesso estrondoso e poderiam ter ficado nesse caminho meia-boca de fazer “Anna Júlia oh, oh, oh, sei lá como é a música” e foram contra. Eles têm um trabalho respeitabilíssimo, o Marcelo e o Rodrigo (Amarante, baixista do grupo) também. O que mais me impressionou no Marcelo, é uma coisa que eu até falo no show, é que ele tem uma história. Tudo o que ele conta tem um início, um meio e um final. E eu sou uma intérprete. Quando ele me mostrou “Santa Chuva” no estúdio eu já tinha me apaixonado pelas músicas dele. Ele lá no violãozinho dele, de repente ele diz: “que santo vai brigar por você”. Aquilo tem uma imagem... É como um filme aquela música. Ele é muito sensível e vai do mais abstrato, etéreo, ao mundo real. Ele tem um talento próprio único, genial. Sou fã dele.

JC - Uma das grandes qualidades do seu disco está na sua capacidade de cantar músicas densas e intimistas como “Cupido” tão bem quanto outras mais alegres como “A Festa” ou “Agora Só Falta Você”.

Maria Rita - Eu só sou intérprete, não componho, não toco instrumento algum, então eu me preocupei muito no disco em me mostrar intérprete, mostrar a voz. Um caminho foi escolher músicas que tivessem essa emoção, como “Cupido” ou “Santa Chuva”, mas também outras possibilidades. Esse disco é quase autobiográfico porque tem um pouco de tudo. Tem “Cara Valente”, que tem uma brincadeira e eu sou muito brincalhona; tem “A Festa”, que tem uma latinidade que eu curto muito; “Dos Gardenias” também, que é cubana, tem essa coisa latina que eu sinto. Então nesse disco eu tive músicas que me permitiram explorar todas essas facetas e da maneira mais crua possível para um primeiro trabalho, para estabelecer isso para o público.

• Serviço

Show de Maria Rita. Hoje, a partir das 20h30, no Espaço Mixage, na rua Rubens Pagani, 4-44, no Estoril. Realização: Visa. Patrocínio: Natura. Apoio: Grupo Santa Paula, Jornal da Cidade, 96FM e TVTEM. Informações: (14) 3227-7031.