08 de julho de 2026
Articulistas

O cão com nome inglês


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As pessoas que se isolam, que vivem em estado de prolongada solidão, correm o risco de se idiotizar. Conheço profissionais inteligentes que, uma vez seduzidos pelo poder de mando, julgaram-se no direito de monologar em vez de estabelecer um processo dialógico e democrático com seus circunstantes. A necessidade de entender os outros e de se fazer entender por eles é que abre a cabeça dos indivíduos. O verdadeiro sábio não é aquele que fala do alto da cátedra mas o que consegue “subir” ao nível do povo. Oswald de Andrade propunha uma atitude análoga a dos índios antropófagos: mastigar, engolir e digerir os elementos que nos interessam nos outros, como forma de enriquecer a si próprio. Costumava pegar o bonde Penha-Lapa em São Paulo, só para ouvir e conversar com o povo. Dessa forma incrementava a sua obra de vanguarda, até hoje tão inovadora

A mesma coisa acontece com as línguas. Os idiomas precisam aprender coisas importantes com o inglês, porém, ao mesmo tempo, precisam se precaver contra certas tendências nas quais se suspeita que existam elementos típicos de um certo colonialismo cultural. Num ímpeto nativista alguns filólogos propõem que se adote aqui o que já se faz em Portugal – os nomes dos estrangeiros, sempre que possível, sejam traduzidos para o português. Lá em Portugal, por exemplo, não se diz Rainha Elizabeth, mas Isabel, princesa Margarida, príncipe Carlos e assim por diante. Quando Pedro Bloch quis encenar em Lisboa a sua peça de grande sucesso nos anos 60 chamada Society em Baby-doll , os portugueses obrigaram-no a mudar o título para “Sociedade de Pijama”. E estamos conversados. O título do filme “Ben-Hur” foi mudado para “O charreteiro infernal”, por causa da grande corrida de bigas. A regra vale também para nomes substantivados e objetos. Chiclets, lá, são gomas elásticas; trem é combóio; sandwich foi aportuguesado para sandes, uma palavra feminina; mouse é rato e site é sítio, pois não.

Nos Estados Unidos, país que detêm a hegemonia da indústria cultural, esse cuidado também existe. Parece que os americanos têm medo de serem colonizados por nós, bárbaros. O The New York Times traduz Carlinhos Cachoeira por Charlie Waterfall. Fernandinho Beira-Mar é Fredy Sea-shore.

A prevalecer o ímpeto nativista fico imaginando como iríamos traduzir certos nomes de gente famosa. O filósofo Ludwig Feuerbach viraria Ludovico Riacho e Fogo. O sociólogo Max Weber seria chamado de Max Tecelão. O cineasta Serguei Eisenstein seria rebatizado como Sérgio Pedra de Ferro.

É justamente no cinema que essa mudança iria causar um grande reboliço. Não percam! Filme estrelado por Clint Floresta do Oriente (Clint Eastwood). A própria Meca do cinema passaria a ser conhecida como “Bosque de Azevinhos”(Hollywood), uma conífera que dá umas frutinhas vermelhas muito usadas na decoração de Natal. Quero ver anunciarem no Tele Cine a velha comédia com o Beto Esperança (Bob Hope). Os admiradores das façanhas do agente 007, James Bond vão ter que se conformar a vê-lo reduzido a Jaime Cola. Brad Pitt passaria a ser anunciado no Brasil como Cova no Chão para Estaca. Que tal Vera Fischer transformada em Vera Pescador? Vera Zimmermann em Vera Carpinteiro? Marlene Dietrich vai ser Vera Torpedo.

Todo dia passa em frente de casa um garotão com seu pitbull de cara ameaçadora. Meu cachorrinho, precavido, corre para dentro logo que sente o seu cheiro. Outro dia saí para passear com o meu mini-toy (mini-brinquedo) pelas ruas do bairro e topei com o pitboy (garoto de briga) com seu pitbull (briga com touro). Imediatamente peguei-o no colo para livrá-lo de um possível massacre.

- Qual o nome dele – perguntou-me o boy

- Juquinha.

- O meu tem nome mais bonito: Hunter (Caçador)!

- Em compensação o meu você nem precisa chamar pelo nome. Basta latir que ele atende. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)