31 de maio de 2026
Cultura

'Era Uma Vez...'

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Uma dos destaques do cenário literário local, a escritora bauruense Marina Monteiro prova com seu próprio trabalho que é possível manter a inocência infantil por meio da imaginação. Com 32 livros publicados, sendo 14 destinados à crianças de até 10 anos de idade, ela conta que seus temas abordam elementos da fantasia e abusam de recursos lúdicos para encantar os pequenos.

Para isso, capricha nas ilustrações e recursos técnicos para despertar o interesse dos pequenos. Seu mais recente livro, “Eu Posso Te Ajudar” (2003), é recheado de possibilidades de interação que vão desde imagens e cores atraentes até espaços para desenhar e escrever. O mesmo ocorre com a obra “A Festa de Lunita” (2003). Considerada uma das melhores produções de Marina, a obra também foi publicada em espanhol, sendo vendida em diversos países da América Latina, como Peru, Chile e México.

O prestígio, fruto de uma carreira de mais de 20 anos, não acaba por aí. Esta semana, a escritora - que promoveu um Dia de Autógrafos durante a Feira do Livro Infantil no Centro Cultural - foi convidada a participar da Bienal do Livro em São Paulo (que será realizada até dia 25, em São Paulo.

Em um bate-papo com a equipe do JC Cultura, Marina afirma que prioriza a arte de contar histórias e revela, aos 72 anos, que o contato com as crianças é a melhor coisa da sua vida. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como a senhora se define profissionalmente?

Marina Monteiro - Eu sou escritora desde 1988 e já passei por vários estágios. Não tenho um específico hoje, mas sempre trabalhei com a imaginação, aspectos lúdicos e bons princípios.

JC - Por que a escolha pelas fábulas e fantasias como principais temas de seus contos?

Marina - A criança não pode sair do mundo dela, não podemos trazer para ela temas violentos pois já temos tantos problemas com isso. A criança já tem por si própria uma imaginação fértil. Então é preciso ter o cuidado de explorar essa imaginação da criança para o lado bom, através de procedimentos éticos e caminhos que elas possam percorrer.

JC - Por que a senhora prioriza a arte de contar histórias em seu trabalho?

Marina - O contar histórias é uma coisa muito própria porque você pode ler uma história para uma criança e ela não achar graça. Agora se o contador de histórias não for bom, a criança não interage com a história. O interessante é quando ela lê, pergunta, dá gargalhadas. Isso vai muito do profissional, não é qualquer pessoa que conta uma história que satisfaça a criança. Eu me realizo quando vejo a criança às gargalhadas ou emocionada com uma história. Eu me lembro da minha primeira experiência de contar histórias. Contei Patinho Feio’, mas eu com tanta ênfase que quando terminei, haviam 30 crianças chorando.

JC - Despertar a emoção é uma forma de reforçar o conteúdo e a mensagem transmitidos pelas histórias?

Marina - Com certeza. A gente não pode ser nem exagerada nem comedida. Temos que ter o volume certinho, essa é a técnica. Eu não posso exagerar para uma criança porque aquilo marca para ela. Eu contei histórias durante 30 anos na pré-escola e eu percebia que a frase ‘Era uma vez...’, era tão mágica que eles podiam estar bagunçando ou brigando, que imediatamente paravam, sentavam e ficavam olhando para você, esperando o que vinha depois. E muitas vezes eu não sabia o que eu iria contar, eu usava a palavra para acalmá-los e depois eu inventava a história, deixava eles terminarem um pedaço, fazia perguntas. O importante é que elas participavam comigo das histórias.

JC - O uso de recursos visuais e tecnologia são válidos para atrair a atenção das crianças?

Marina - É válido porque a criança não sabe o conteúdo, ela vê e se interessa. Os meninos se interessam mais pelos sacis e vampiros, as meninas pelas princesas, fadas e bruxas atrapalhadas. É muito gratificante ver a primeira impressão que as crianças têm. Depois elas abrem o livro, não sabem quem é o autor ou a editora, isso não está interessando para ela. Depois que elas crescem, são ensinadas a como se ler um livro através do trabalho sobre o autor ou autora, e assim vai se interessando mais profundamente.

JC - Como é o seu processo de escolha de um tema até a elaboração de um livro?

Marina - Eu escolho o tema e na verdade a idéia já está na cabeça. O mais difícil para o escritor é encontrar uma editora boa e divulgação, esse é um caminho difícil, porque primeiro a editora tem que gostar da sua história e aceitar ou não. Isso leva alguns meses ou um ano, porque ela recebe muitos originais e dão oportunidades a outras pessoas.

JC - Como a senhora avalia a literatura infantil atualmente?

Marina - A literatura infantil está muito boa, nunca se falou tanto em literatura infantil como agora. Acho que os pais estão entendendo que ao invés de dar um brinquedo, eles podem dar um livro. Os pais se conscientizaram de que é importante incentivar os filhos desde pequenos. Nas escolas já existem as bibliotecas. Nas bienais, existem ofertas de todo tipo. Qual é a criança que não pode comprar um livro por R$ 0,50? A idéia é fazer com que a criança tenha contato com o livro escolhendo o tema que a agrada.

JC - A senhora está escrevendo algum livro agora?

Marina - Eu estou com um pronto chamado “A Festa dos Animais”, com ilustração do Milton Nakata. Estamos apenas aguardando uma boa editora para lançá-lo. Tenho também um cartilha didática chamada “Viagem no Mundo das Letras”, que está em fase de acabamento.

JC - Enquanto a senhora autografava, percebi que muitas vezes ficou emocionada com os pequenos. Por quê?

Marina - Até hoje eu sou criança e troco qualquer coisa por um dia como esse, um lugar que tenha criança. Adoro me vestir de coelhinho e fazer arte. Acho que não pode faltar para a criança ser criança. Há pais que colocam os filhos para fazer tantas coisas, tantos cursos, e no fim a criança acaba não conseguindo ser criança. Ela precisa brincar para ser tornar um adulto feliz.