09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: A experiência do sofrimento

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Uma lenda medieval conta que Deus teve misericórdia com uma pessoa que sempre reclamava por carregar sua terrível cruz. Então Deus a conduziu a um salão onde havia uma diversidade enorme de cruzes e lhe disse: “Escolha a cruz que você desejar!” A pessoa passou a examinar uma a uma com muito cuidado. Uma era muito estreita, outra muito longa, outra grossa demais. Depois de experimentar muitas cruzes, finalmente, a pessoa encontrou uma cruz que parecia ser a ideal.

Porém, ao carregá-la por alguns minutos percebeu que ela possuía pequenos espinhos que machucavam terrivelmente seus ombros. Não, aquela também não seria sua cruz. Continuou ele, então, a procurar. Quando estava quase desistindo viu uma cruz que lhe havia passado despercebido. A cruz era simplesmente perfeita. Ela possuía o tamanho certo e o peso correto.

Ao ser colocada nos ombros, a cruz se encaixava direitinho. Aliviada, a pessoa pode tomar a decisão final: ela carregaria aquela cruz a partir daquele dia. Porém, ao olhar com mais atenção a cruz escolhida, percebeu que ela era exatamente a cruz que sempre havia carregado.

Em seu livro “Ética a Nicômaco”, escreveu Aristóteles que “o homem prudente luta para libertar-se do sofrimento, não do prazer”. Esta luta, porém, nos parece quase que inútil, um perfeito castigo de Sísifo, pois é muito difícil desvincular a dor da vida, o sofrimento do viver. Esta constatação, somada à necessidade de ser feliz, fez com que o filósofo Nietzsche descobrisse, para o problema, uma receita alquímica: o alcance da satisfação não está associado à eliminação do sofrimento, mas sim ao reconhecimento deste como uma etapa natural e inevitável no processo de conquistar algum bem.

É impossível atingir o prazer na vida sem vivenciarmos períodos de dor, insatisfação ou sofrimento. A própria sensibilidade do que é a alegria ou o prazer está na dependência do grau de tristeza ou de dor que experimentamos durante a vida. Nós permanecemos no constante sofrimento porque não conseguimos conhecer a fundo os ingredientes da satisfação. Porém, nós só os conhecemos à medida que vivemos profundamente o sofrimento.

“Se desejar diminuir e reduzir o nível de sofrimento humano, tem-se também de diminuir e reduzir o nível de sua capacidade para a alegria”, afirma o filósofo alemão. Os mais satisfatórios projetos humanos parecem inseparáveis de um grau de tormento; estranhamente, as origens de nossas alegrias parecem residir junto àquelas de nossos sofrimentos.

Para Nietzsche “alguns tipos de ódio, a inveja, a obstinação, a desconfiança, a insensibilidade, a avareza e a violência fazem, ou não, parte das condições favoráveis sem as quais qualquer grande progresso, mesmo o da virtude, quase nunca é possível”. A confrontação com o sofrimento não é um caminho fácil de ser trilhado, mas é uma alternativa que pode gerar o nosso amadurecimento e com ele momentos intensos de prazer.

Como São João da Cruz, Nietzsche utiliza a metáfora da montanha: o sofrimento é o momento do alpinismo que nos faz deixar a mediocridade e atingir o topo da satisfação. Porém, o sofrimento em si não significa automaticamente um caminhado à felicidade. Reverter ou não o mal depende do grau de perspicácia e de determinação daquele que sofre, ou seja, o surgimento da satisfação na vida depende sempre da maneira de encarar o sofrimento.

A inveja pode resultar em uma eterna amargura frente à realização pessoal dos outros ou na decisão de melhorar nossa vida buscando nossa própria realização pessoal. A arte de viver está justamente em se fazer bom uso de nosso lado negativo. Infelizmente, somos propensos a achar que a ansiedade e a inveja não têm nada a nos ensinar e as removemos como se fossem ervas daninhas. Muitas vezes, preferimos a fuga de tudo que nos faz infelizes e nos causa sofrimento através da “cultura do analgésico”, da “neutralização estética” dos meios de comunicação ou de práticas religiosas anestésicas.

Deixamos de compreender, assim, que o sofrimento é um caminho árduo, mas altamente compensador, que nos leva à confrontação com nossos erros, pensamentos negativos, atos destruidores ou situações de infortúnio. Porém, Deus não se constitui em um ser sádico que deseja o sacrifício dos seres humanos e não há sentido em assumirmos uma postura de masoquistas, construindo para nós cruzes para carregarmos.

A vida em si já possui sofrimentos que devemos enfrentar e que possuem uma única razão de ser: o aprendizado. Este possui como objetivo a harmonia, o prazer e a alegria de estar vivo. “Os homens são sábios não na proporção de sua experiência, mas sim de sua capacidade para a experiência” (George Bernard Shaw).