09 de julho de 2026
Saúde

Rouquidão na infância indica distúrbio

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de jogar uma partida de futebol com os amigos, o menino volta para casa rouco e reclamando de dor na garganta. Para a maioria dos pais, isso é só conseqüência da gritaria durante a partida e que vai passar logo. Mas especialistas advertem que essa alteração pode sinalizar o desenvolvimento de um problema vocal importante.

Destacando o Dia Mundial da Voz, comemorado anteontem, profissionais alertam que, se não for tratada, a disfonia infantil pode causar danos irreversíveis.

“Esse tipo de alteração em que a criança fica rouca ou com a voz fraca depois de uma brincadeira não é para acontecer nem por períodos curtos, ou seja, nem que a voz volte ao normal depois de algumas horas”, alerta a fonoaudióloga Alcione Brasolotto, professora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

“Nesses casos, os pais costumam dizer que a criança ficou rouca porque gritou muito. Gritar foi só o disparador da disfonia, ela começa a se instalar assim. Com o tempo, os episódios vão ficando mais freqüentes, a criança fica rouca só de brincar meia horinha, até que um dia a voz não volta mais ao normal. Essa é uma situação progressiva bem típica da disfonia”, comenta.

Brasolotto explica que o ser humano tem duas pregas (cordas vocais) na laringe. A vibração delas causada pela passagem do ar é que produz a voz. “Para a voz ser clara e limpa, essas pregas têm que estar íntegras. Qualquer enrijecimento, lesão ou tensão nelas pode fazer com que essa vibração não ocorra de forma harmônica e aí a gente escuta um som rouco”, descreve.

Segundo ela, a disfonia pode ser causada por fatores congênitos ou adquiridos. Os primeiros referem-se à alterações genéticas - a criança já nasce com irregularidades na anatomia da laringe. “Isso pode aparecer logo nos primeiros meses de vida, quando o choro do bebê já é rouquinho, ou no decorrer do desenvolvimento”, informa.

Já os fatores adquiridos são alterações que acometem a laringe devido a hábitos inadequados, como falar por muitas horas seguidas, falar alto demais ou gritar com freqüência, tensionar muito os músculos para falar, projetar o som na garganta ao invés de na cavidade bucal, freqüentar ambientes muito ruidosos e assim por diante.

Esse uso inadequado da voz pode lesionar as pregas vocais, levando ao aparecimento de nódulos - os chamados calos da corda vocal. O processo é semelhante ao que ocorre na formação de calos nos pés e nas mãos: de tanto ser agredida por um atrito exagerado e persistente, a pele endurece naquele local. Nas cordas vocais, isso afeta a harmonia da vibração, alterando a voz.

“Aí, você pode perguntar por que duas crianças brincando juntas, gritando do mesmo jeito e pelo mesmo tempo, uma fica rouca e a outra não? Porque uma delas já tinha predisposição à disfonia e a outra não”, destaca Brasolotto.

Conseqüências

A voz é considerada uma das mais importantes formas de expressão do ser humano - sua principal ferramenta de comunicação. Por isso, a disfonia pode ter diversas repercussões na vida de alguém.

Uma delas é o trauma social. A menina com voz grave, por exemplo, pode ficar com o estigma de “a garota que fala grosso”. Situação semelhante ocorre com o menino que apresenta falhas na voz. Antes da voz sumir, ela geralmente sofre um pico agudo, o que pode gerar piadinhas e constrangimento num grupo de amigos.

Além disso, Brasolotto salienta que é preciso considerar o futuro. A disfonia pode não atrapalhar a vida da criança na escola ou em outras atividades rotineiras hoje, mas pode ser decisiva no futuro.

“Se não for tratada precocemente, a criança pode não conseguir uma reabilitação completa mais tarde, tendo que carregar a disfonia por toda a vida adulta. Então, ela pode escolher ser cantora, atriz, jornalista e aí vai haver uma limitação proibitiva para essas áreas”, adverte a especialista.

Segundo ela, cabe aos pais e professores observar sempre o comportamento vocal das crianças, especialmente depois das brincadeiras em grupo, seja na rua ou no recreio. Brasolotto afirma que essa atenção tem aumentado bastante nos últimos tempos.

“Boa parte das vezes, é a criança que percebe o problema. Hoje, a maioria das escolas oferece aulas de canto e teatro. São atividades que atraem a criança. Então, se ela não consegue alcançar as notas que os colegas alcançam, ela acaba reclamando para os pais, que buscam ajuda profissional. Se o professor estiver bem orientado, ele pode identificar o problema ainda mais cedo”, comenta.

Brasolotto lembra que nenhuma alteração vocal é normal. Falhas na voz e rouquidões por esforço não devem acontecer nunca. A criança que apresenta esses problemas, seja com freqüência ou esporadicamente, deve ser avaliada por um especialista. “Pode não ser nada, pode ser só abuso momentâneo mesmo, mas pode ser o início de uma disfonia. E em se tratando de saúde, é sempre melhor pecar por excesso”, completa.