A primeira providência que se deve tomar diante de um diagnóstico de disfonia é avaliar os hábitos e ambientes freqüentados pela criança. Uma parcela considerável do tratamento depende de mudanças de comportamento, segundo a fonoaudióloga Eny Neves Pereira, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru.
“As crianças vêm à terapia duas vezes por semana e cada sessão tem 50 minutos de duração. Se a família e a escola não promovem uma mudança de hábitos, o profissional, só no consultório, não consegue resolver”, comenta.
“Não adianta a criança fazer os exercícios corretamente na clínica se em casa e na escola houver um desajuste ambiental que favoreça esse uso constante e abusivo da voz”, acrescenta a fonoaudióloga Alcione Brasolotto.
Uma das primeiras coisas a ser corrigida, segundo elas, é o hábito que algumas crianças têm de gritar. Ao invés de esperar o amigo terminar de falar, ela grita para se sobressair numa discussão em grupo. Ao invés de caminhar para chegar até a mãe, ela berra de onde estiver.
“Ao gritar, a criança sofre um estiramento muito grande nas pregas vocais, o que interfere na qualidade da voz”, destaca Pereira.
Falar alto demais também pode ser conseqüência de ambientes ruidosos. As especialistas salientam que a criança acaba tendo que competir com o ruído para se fazer ouvir. Isso é comum em locais onde há televisão, rádio ou computador ligados, quando a panela de pressão está funcionando, quando há vários grupos conversando paralelamente numa mesma sala de aula, durante o recreio e assim por diante.
“Nesses casos, os adultos deveriam oferecer ambientes mais saudáveis para a criança, reduzir o ruído, propor uma brincadeira diferente que não exija o uso da voz. Ambientes silenciosos fazem a criança reduzir a intensidade da voz naturalmente”, sugere Brasolotto.
Outro hábito ruim para a saúde vocal, segundo Pereira, é a falta de hidratação. “A criança não tem o hábito de beber água. Pais e professores devem lembrá-la de tomar água constantemente para lubrificar as pregas vocais. O ideal é ter uma garrafinha sempre à mão e tomar pequenos goles a toda hora. A falta de hidratação também pode causar alteração vocal”, destaca.
Pigarrear é outra atitude condenada pelas especialistas. Apesar de livrar as pregas vocais das secreções ali acumuladas, a força exercida prejudica a laringe. “Ao invés disso, você deve beber água ou acumular uma quantidade maior de saliva na boca e deglutir (engolir), mas sem forçar as pregas”, orienta Pereira.
Brasolotto chama a atenção, ainda, para crianças que gostam de imitar pessoas e personagens. A imitação constante obriga a criança a adotar um padrão de voz muito diferente do seu e isso também pode desencadear a disfonia.
“A criança tem aquela voz mais aguda, típica para a idade, porque a anatomia dela favorece aquilo. Para imitar o monstro da voz grave, ela vai fazer um comportamento ruim, vai forçar as estruturas da fala. Nesse caso, a melhor atitude para os pais é propor uma outra atividade que não exija tanto da voz”, ressalta Brasolotto.
Segundo ela, a mudança de comportamento deve ocorrer de maneira espontânea, sem brigas ou punições. “Se você proíbe a criança de gritar ou imitar, você pode ter um efeito contrário do esperado. A melhor postura é desviar a atenção dela para outras brincadeiras”, recomenda Brasolotto.
Distúrbios
A disfonia também pode ser causada por problemas de saúde da criança. Um exemplo citado pelas especialistas é a alergia. Crianças que apresentam alterações freqüentes nas vias respiratórias causadas por rinite, sinusite, bronquite ou mesmo resfriados de repetição tendem a apresentar uma quantidade muito grande de secreções na laringe.
As secreções dificultam a vibração das pregas vocais e, conseqüentemente, alteram a produção da voz. Nesses casos, o tratamento da disfonia deve começar pelo tratamento da alergia, além de se reduzir a poluição dos ambientes freqüentados pela criança.
Eny Pereira também considera preocupante a criança que respira pela boca a maior parte do tempo. “A passagem do ar resseca as pregas vocais. Sem a lubrificação necessária, a voz sairá alterada e as pregas têm um risco maior de sofrer uma lesão”, explica.
Outra situação que pode desencadear a disfonia é o refluxo gastroesofágico - um distúrbio em que os líquidos ácidos do estômago voltam ao esôfago. Ao atingir a laringe, os ácidos também podem “queimar” as pregas vocais, alterando a produção da voz.
Segundo as especialistas, todas essas condições devem ser avaliadas e sanadas para o sucesso do tratamento da disfonia.