09 de julho de 2026
Política

Partidos analisam candidatura de mulheres com preconceito

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

A maioria dos dirigentes de partidos ainda encara as mulheres com preconceito quando o assunto é candidatura. É o que avalia a socióloga Giane Boselli, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, sediado em Brasília (DF). Mesmo com os avanços dos últimos anos - como a reserva de 30% das vagas para disputa eleitoral -, a presença feminina na vida orgânica partidária ainda é vista pela ala masculina meramente como apoio em épocas de campanha.

A participação da mulher brasileira na política é muito recente e ainda gera resultados sem destaques. A constatação pode ser observada na posição em que o País se encontra na lista de ranking que mede a presença feminina na política. O Brasil posiciona-se em 90.ª lugar no mundo nesse quesito. “As suecas, dinamarquesas e finlandesas - pela ordem - são as campeãs em ocupar espaços na política”, informa Giane.

Ela avalia que as brasileiras avançam no setor após a criação da cota de reserva para candidaturas, embora reconheça que o crescimento tenha sido pequeno. “Não há falta de interesse da mulher em participar da política. Temos muitas mulheres filiadas, mas elas enfrentam problemas na hora da candidatura. O que se percebe é que ainda há muito preconceito. Elas acabam ficando mais no apoio de candidaturas masculinas”, analisa.

Poucos partidos - dentre os quais o PT - incentivam a participação da mulher na vida orgânica cotidiana do movimento político. “No PT já há cotas na direção partidária. Mas na maioria das legendas isso não ocorre. O problema mesmo é na hora da candidatura. Se consegue sair à disputa, não consegue recursos para a campanha. Elas não aparecem na TV. Com isso, o resultado é fraco”, observa.

A socióloga também chama a atenção para a tímida presença de mulheres na direção dos partidos, ou seja, sem participar do comando das decisões a situação complica-se mais ainda. “Aliado a tudo isso, temos que levar em consideração a dupla jornada de trabalho. Portanto, não há falta de interesse, mas sim falta de tempo. Para o homem, é muito mais fácil participar de uma reunião à noite. Infelizmente, ele não tem a responsabilidade tão grande de cuidar dos filhos como a mulher”, diz.

Para ela, a discreta presença feminina no mundo político brasileiro também está relacionada à questão cultural. “Por muito tempo, a mulher brasileira foi excluída da vida política. Era proibida de votar e de ser votada. Existe um atraso. Os homens sempre estiveram na política e as mulheres entraram muito depois. Então, até elas se candidatarem e começarem a ser eleitas demorou muito.”

Investimentos

Em Bauru, a situação não é diferente da avaliação nacional. Nas eleições municipais de 1992, as candidatas mulheres à Câmara Municipal conseguiram somar 5 mil votos. Quatro anos depois, em 1996, a situação avançou: 15 mil votos. Surpreendentemente, na última eleição esse número caiu para 12 mil votos divididos por cerca de 120 candidatas. Há uma expectativa para a eleição municipal deste ano, cujo número de candidaturas deverá diminuir devido a virtual redução das cadeiras no Poder Legislativo.

A vereadora Majô Jandreice (PCdoB) prevê uma performance melhor das mulheres em outubro. Mas ela também avalia que os partidos políticos têm preconceitos com candidaturas femininas. A comunista lembra que a maior concentração dos 12 mil votos somados pelas mulheres na eleição de 2000 foi registrada no PFL, PDT e PP.

“Quantas mulheres foram eleitas por esses partidos? Nenhuma. A Catarina Carvalho, do PFL, virou suplente na época. Quantos homens elas ajudaram a eleger através do voto de legenda? Não era para esses partidos terem investido mais nessas candidaturas? Não tenho dúvida de que há privilégios nas candidaturas masculinas. A questão não é nem de machismo, mas de disputa política, de espaço interno mesmo”, afirma.

O descontentamento da ala feminina com os partidos é reforçado pela vereadora Catarina Carvalho (PFL). “Por várias vezes me questionei se valeria a pena continuar na política em razão dessa cultura partidária. Há sim desinteresse dos partidos pela mulher. A maioria das legendas vê quantas mulheres vão necessitar para preencher a cota de 30% e começam a correr atrás na última hora. Não há nos partidos educação política permanente para a mulher”, desabafa.

Na avaliação da pefelista, esse comportamento acaba provocando desestímulo na ala feminina que tenta alavancar candidaturas para aumentar a representatividade nos poderes, seja Executivo ou Legislativo. “De tanta força que faço com meu trabalho, acabam me chamando de espaçosa. Ficam seqüelas. O que eu quero é que as pessoas notem que também há trabalho de mulher na política.”