09 de julho de 2026
Geral

Criança de circo transita por escolas

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Antes do primeiro dia de aula, bate aquele nervosismo, a curiosidade de conhecer os novos professores e encontrar novos colegas. E como seria ter essa sensação pelo menos uma vez por mês? Os filhos de artistas e funcionários circenses, que viajam com sua família participando dos espetáculos em todo o País, sabem a resposta. A cada cidade em que o circo se instala, as crianças conhecem uma nova escola, novos professores e colegas, que os ajudam a acompanhar o conteúdo e também aprendem com a experiência dos artistas.

Fábio Henrique Padilha, 14 anos, que é filho do diretor de marketing do Circo Mundo Mágico de Beto Carrero, há mais de uma semana em Bauru, comenta que nem fica nervoso ao entrar em uma nova escola. “A gente já está acostumado com as mudanças. O pessoal sempre nos recebe bem e é fácil fazer amizades. Aqui em Bauru mesmo, tanto os colegas quanto os professores receberam a gente superbem”, diz o garoto, que está cursando a 7.ª série do ensino fundamental na escola estadual Durval Guedes de Azevedo.

Somente neste ano, as crianças já conheceram escolas em três cidades, incluindo Bauru, e na próxima semana mudam-se para Marília. Neste ritmo de viagens, elas acabam passando por mais de dez escolas a cada ano e a rotina de mudanças acaba por facilitar sua adaptação.

A vida dos filhos dos funcionários e artistas circenses desperta curiosidade dos colegas e ajuda a fazer amizade com os novos colegas. Saraiva Marino Cloches, 10 anos, diz que ficou boa parte de seu primeiro dia na 4.ª série da escola estadual Antônio Serralvo Sobrinho contando sobre sua rotina e as viagens com o espetáculo. “Depois da professora me apresentar, ficamos conversando bastante tempo. Eu contei como a gente vive, sobre os lugares que a gente conhece viajando e sobre os artistas”, lembra.

No entanto, nem sempre as crianças são bem recebidas. Eles relatam que alguns professores não lhes dão muita atenção ou demonstram certo preconceito, por serem alunos temporários na escola. “Se eles não tratam a gente bem, nossas mães pedem para a gente conversar, e elas também procuram a escola para ficar tudo bem”, observa Rafael Soares da Mata, de 11 anos, que está na 5ª série.

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Segundo Fábio, as crianças encontram dificuldades especialmente quando o conteúdo das disciplinas que a turma está vendo é diferente do que eles já aprenderam. “Em algumas cidades a matéria é bem diferente, aí a gente tem que correr atrás, pedir ajuda para os professores e para os colegas da sala. Mas várias vezes, a matéria que eu tinha visto na escola antiga é a mesma, então fica mais fácil”, ressalta.

A diretora da escola Durval Guedes de Azevedo, Regina Célia Santos Nunes Barros, afirma que percebeu nas crianças uma grande preocupação em se adaptar à nova escola e em acompanhar o restante da turma. “Eles são muito aplicados e interessados, se preocupam em acompanhar a sala e se justificam quando percebem que ainda não tiveram aulas sobre algum conteúdo que os outros já viram”, diz.

Ela analisa que o aprendizado das crianças acaba não sendo prejudicado principalmente pela força de vontade e pelo esforço dos pais em mantê-los na escola. “Eles demonstram preocupação em não conseguir acompanhar as aulas, mas correm atrás para aprender e isto é muito importante. E além de serem esforçados, também são bons alunos”, elogia Regina.

O diretor de marketing do circo, Jhonny Barnon, concorda com a diretora. Ele reconhece o esforço das crianças, que têm de se adaptar às mudanças freqüentes, e também dos pais, que insistem para que seus filhos não abandonem a escola.

“As crianças viajam com a gente e não podem ficar sem estudar. E elas sabem também que o circo é a maior escola do mundo. Nossos filhos, com 8 ou 9 anos, conhecem ao vivo o que as outras só viram na escola. Muitas falam três idiomas e conhecem mais de oito países. Essa experiência acaba enriquecendo também a escola e os amigos que eles fazem”, conclui.