08 de julho de 2026
Geral

Maioria negra nem chega ao 2º grau

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Enquanto as discussões sobre o sistema de cotas para o ingresso dos candidatos afro-descendentes no ensino superior vem se aquecendo no meio acadêmico, a dificuldade dos negros em chegar ao ensino médio ainda é grande. Em 2002, metade dos estudantes brancos na faixa de idade entre 15 e 24 anos estava cursando o ensino médio, sendo que a mesma proporção de negros e pardos ainda freqüentava o ensino fundamental.

Os dados, divulgados na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também apontam que, na mesma faixa etária, 21,7% de brancos freqüentavam as universidades, ao passo que o percentual de afro-descendentes não passava de 5,6%.

O modelo nacional de exclusão racial atestado pelas estatísticas é reproduzido em Bauru, garante o fundador e coordenador do Coletivo Anti-racismo “Milton

Santos” da Apeoesp (sindicato dos professores), Duílio Duka de Souza.

Embora a Diretoria Regional de Ensino de Bauru não disponha de números para confirmar a informação, um estudo realizado por especialistas no Estado de São Paulo mostra que crianças afro-descendentes são excluídas mais cedo do sistema escolar.

Pesquisa

“Particularmente (a exclusão se dá) na passagem da 3.ª para a 4.ª série do 1.º grau”, diz o coordenador da Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Antonio Carlos da Silva Barros. Ele tomou como base uma pesquisa veiculada no livro “Discriminação racial nas escolas”.

Os especialistas que se debruçaram sobre o assunto também concluíram que as crianças negras tendem a repetir o ano com maior freqüência do que as brancas.

“Temos de estabelecer medidas estruturais num longo prazo, que se preocupem com a universalização da educação infantil, dando condições de permanência qualitativa (à população afro) durante toda a educação básica, com a universalização da saúde, da moradia, do lazer, com a igualdade de oportunidade para todos no mercado de trabalho”, diz Duka.

Para ele, só assim será possível fazer do sistema de cotas para negros nas universidades uma medida transitória, capaz de recuperar os erros do passado, que alijaram a população negra da propriedade dos meios de produção e da riqueza que ela ajudou a construir neste país.

Disparate

“Mesmo que haja uma melhora significativa no ensino público básico, o que é fundamental para que os estudantes (negros) possam competir no vestibular com os alunos de colégios privados, os afro-descendentes levariam cerca de 32 anos para atingir o atual nível dos brancos, desde que os brancos ficassem parados, esperando a chegada dos negros para prosseguirem juntos”, diz o membro do Conselho da Comunidade Negra de Bauru, Roque José Ferreira. Na opinião dele, a entrada de negros e outros segmentos sociais excluídos do acesso à universidade pública via política de cotas não acaba com a exclusão, mas neste momento ela pode ser útil, pois enseja a discussão sobre as conseqüências do racismo no Brasil. “No caso das cotas para ingresso nas universidades, precisamos dizer claramente que só a acessibilidade é pura demagogia. É preciso entrar e permanecer (na escola). Por isso é fundamental que neste debate incluamos propostas que evitem a evasão e a retenção desde o ensino básico”, reitera Ferreira.

Concorda com ele o aluno do 2.º ano do ensino médio de uma escola pública de Bauru, Júlio César Ribeiro Barbosa. Ele pretende prestar vestibular para medicina ou educação física. “Não descarto a possibilidade das cotas provocarem discriminação, mas acho a iniciativa legal porque é difícil para o negro chegar à faculdade”, conclui.