As três universidades públicas do Estado de São Paulo aprovam cerca de 10% de alunos negros no vestibular. Embora a presença afro-descendente seja mínima na Universidade Estadual Paulista (Unesp), na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Campinas (Unicamp), a discussão sobre a reserva de cotas para o ingresso de estudantes negros no ensino superior vem sendo conduzida com cautela.
O cuidado é fruto das mais variadas controvérsias, que passam pela questão do mérito na admissão dos novos universitários, pela dificuldade de implementar o sistema de modo proporcional nos diversos câmpus espalhados pelo Estado e pela avaliação das experiências adquiridas tanto pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) quanto pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que já adotaram a reserva de cotas.
A iniciativa nestes dois casos só não foi idêntica porque, ao estabelecer cotas, a universidade carioca não priorizou os estudantes que cursaram o ensino médio em escola pública, como fez a universidade baiana.
“Já ficou constatado que o rendimento dos afro-descendentes que entraram pelo sistema de cotas na Uneb foi superior ao do restante”, diz a coordenadora do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão (Nupe), Marizilda dos Santos Menezes.
No entanto, uma das principais preocupações das três universidades públicas do Estado de São Paulo quando o assunto é o sistema de cotas é a possibilidade da qualidade do ensino cair.
“As universidades paulistas têm que discutir prestígio e estatus, por isso o assunto ainda está embrionário”, diz o coordenador executivo do Nupe, Dagoberto José Fonseca.
Precaução
Por essa razão, na opinião da estudante do 4.º ano de jornalismo Vivian Silva Lima, se a questão não for bem discutida, pode aumentar a discriminação contra os afro-descendentes dentro do meio acadêmico.
“A implementação das cotas não pode vir de qualquer maneira, mas acho que ela pode ser um dos passos para promover a inclusão dos negros no processo de evolução social e econômica. Não tenho uma opinião totalmente formada sobre isso”, confessa.
Para o reitor da Unesp, José Carlos de Souza Trindade, a reserva de vagas não é o melhor caminho para promover maior inserção social dos negros. Para ele, ao criar vantagens para um determinado grupo, o sistema particulariza o benefício do acesso e pode tornar-se discriminatório e desestimulante para outros segmentos.
No entanto, ele admite a exclusão social, situação contornada pela Unesp a partir de uma política de expansão de vagas, de bolsas para universitários carentes e de formação universitária para professores da rede pública.
“Temos problemas sociais, mas também temos problemas raciais. Não é verdade que resolvendo o problema social se acaba com o racial”, contrapõe Marizilda dos Santos Menezes. Concorda com ela o fundador e coordenador do Coletivo Anti-racismo “Milton Santos” da Apeoesp (sindicato dos professores), Duílio Duka de Souza, para quem as cotas para brancos existem há mais de 500 anos.
A Unesp não informou o percentual de negros que estudam no câmpus de Bauru.