Apenas 1,3% dos alunos aprovados no vestibular de 2004 para a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP) são negros. Os dados do Núcleo de Apoio do Ensino de Graduação (Naeg) apontam também que dos 75 aprovados entre os cursos de odontologia e fonoaudiologia, 2,7% se classificaram como pardos.
O índice de ingresso da população afro-descendente na universidade é próximo à soma das estatísticas referentes ao maior e menor rendimento familiar do total de estudantes que passaram a freqüentar o câmpus neste ano. A remuneração dos pais de 1,4% deles é inferior a R$ 500,00 mensais. Já as famílias de 2,7% dos universitários têm renda superior a R$ 10 mil. A grande maioria (17,6%) ganha entre R$ 500,00 e R$ 1.500,00.
“Não é um valor alto (de salário). Todos entram aqui por mérito. Para avaliar a baixa incidência de negros, teríamos que dispor de dados sobre o interesse deles pelo curso. Às vezes a pessoa tem interesse, mas acha que não tem condições de se manter na universidade. Durante os quatro anos de curso, o aluno gasta em média R$ 10 mil com instrumental”, diz o presidente da Comissão de Graduação da USP, Eduardo Batista Franco.
Além disso, ressalta, o período de aulas é integral e o universitário não tem condições de exercer atividades extras (como trabalhar, por exemplo).
Particular
No entanto, a maioria dos 25 universitários de fonoaudiologia e dos 50 de odontologia que entraram em 2004 fizeram o ensino médio em instituição privada, e apenas 10,7% cursaram escolas públicas.
“A igualdade de oportunidades não pode ser considerada na véspera de entrar no ensino superior, quando todas as forças que separam as experiências educativas dos ricos e dos pobres já exerceram um papel devastador”, alerta Franco.
Para ele, a utilização do sistema de cotas para o ingresso de negros na universidade é injusto e pode provocar até segregação dentro do câmpus. “Se não investirmos na educação de base, continuaremos com o problema”, acrescenta.
Compartilha da mesma opinião a pró-reitora de graduação da USP, Sonia Penin. Ela defende medidas radicais para melhorar a educação de base de modo que os alunos da rede pública cheguem até o ensino superior preparados para disputar as vagas.
“Temos que ter ações afirmativas para que a população afro-descendente alcance o ensino superior pelo mérito, mas a discussão está aberta. Temos que debater muito ainda”. Pensa da mesma maneira o aluno do 1.º ano de odontologia, Hugo Alberto Vidotti. Ele acredita que as cotas apenas maquiarão um sistema deficitário de educação.
“Desde a libertação dos escravos, a população negra é marginalizada. Ela tem as piores remunerações e estuda mal. O jeito seria investir na educação de base”, concorda Luiz Carlos Pires, também estudante do 1.º ano do curso de odontologia. Já para seu colega do 4.º ano, Guilherme Ferreira Bibiano da Silva, a pequena incidência de afro-descendentes no câmpus pode estar relacionada com o tamanho do câmpus de Bauru, que é pequeno.
Independentemente das razões, para Penin já está melhorando a participação dos negros nos cursos da USP, que implantará ainda neste ano um programa de revisão do ensino médio destinado aos estudantes carentes da rede pública. A idéia é prepará-los para o vestibular. “A USP não pode sinalizar para a sociedade que o ingresso de alunos não se dá pelo mérito. Não seria bom nem para eles nem para o País”, conclui.