No ano em que as relações comerciais entre Brasil e China completam três décadas, uma missão brasileira liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcada para o próximo mês, tentará novas investidas e deverá assinar uma série de acordos bilaterais em áreas estratégicas, como a cooperação judiciária e o turismo. Contudo, o que tem realmente tirado o sono de uma quantidade enorme de empresários é como somente um continente - o asiático - tem conseguido concentrar tantos e tão vultosos investimentos.
Atualmente, os principais produtos brasileiros exportados para a China são a soja em grãos e o minério de ferro, além da perspectiva para a exportação de aeronaves. Para o empresário e diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, José Luiz Miranda Simonelli, a real pauta da visita presidencial à terra dos mandarins é incrementar ainda mais a exportação desses produtos.
“Mas o fato é que os chineses têm sido extremamente compradores não só no Brasil, mas em todo o mundo, o que ocasionou uma forte e repentina inflação de demanda no mundo das commodities. É um claro sinal de que, por maior que seja o mercado consumidor daquele país, seu grande interesse está na compra da matéria-prima e não em produtos manufaturados. Isso está prejudicando demais o Brasil”, alerta Simonelli.
O grande problema é que o governo chinês instituiu uma política industrial voltada à realidade daquele país e aos seus interesses econômicos e sociais. Essa política, segundo destaca Simonelli, permite que seus produtos manufaturados agreguem valor de venda extremamente competitivos no mundo inteiro. Também não é raro que isso resulte numa fácil conquista de grandes fatias do mercado internacional em prejuízo da exportação de produtos manufaturados brasileiros para países regidos pela economia de mercado.
“Esta condição competitiva dos produtos chineses não ocorre apenas devido ao já tão conhecido ‘dumping social’, caracterizado por condições de trabalho e remuneração totalmente destoantes do que preconiza a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mas também está fortemente embasada nas condições tributárias em vigor naquele país”, observa o diretor regional do Ciesp.
Consumo
A questão é que a capacidade de consumo dos chineses faz o fenômeno denominado milagre econômico vivido pelo Brasil no início da década de 70 parecer brincadeira. Metade do cimento produzido em todo o mundo no ano passado, 31% do carvão e 21% do aço foram absorvidos pelos chineses. As compras de minério de ferro, de 180 milhões de toneladas, cresceram 31% na comparação com 2002. Somente essa demanda excedente corresponde a tudo o que as siderúrgicas brasileiras produziram em 2003.
Com uma periodicidade quase diária, a mídia em geral anuncia mais e mais investimentos sendo direcionados ao continente asiático, em especial na China. A resposta da maioria das empresas é que a demanda brasileira não justifica investimentos na mesma escala dos que estão sendo destinados para lá.
Há pouco mais de dez anos, era incrível a presença de sapatos brasileiros nos Estados Unidos. A participação do Brasil no mercado americano de calçados importados - o maior do mundo - era de 13%, contra um total de 30% da China e de outros países asiáticos. No ano passado, a participação brasileira caiu para 7%, enquanto a China, sozinha, aumentou a sua para inacreditáveis 67%.
Mas as garras dos tigres asiáticos alcançam os mais diversos segmentos. No início da década de 90, o Brasil contabilizava 23 fabricantes de semicondutores. Atualmente, são apenas as brasileiras Aegis e Itaucom e a alemã Semikron. Entre as várias multinacionais que também foram seduzidas pelo povo de olhos “rasgados” estão Motorola, Sanyo e Philips, que abastecem seus clientes no mundo todo por meio das bases instaladas no Sudeste asiático.