11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Política econômica atrai investimentos

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

Por ser uma economia centralizada (por tratar-se de um país de regime comunista), o governo chinês é sócio efetivo - nos lucros e prejuízos - das empresas, seja por meio dos bancos oficiais ou dos governos provincianos com participação mínima de 50% no capital.

“Isso significa que vender, e em especial exportar, é a grande fonte de arrecadação do governo chinês, o que permite reduzir a tributação a níveis mínimos e aumentar cada vez mais suas reservas cambiais”, aponta o empresário e diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, José Luiz Miranda Simonelli.

Essa foi a política que o governo chinês encontrou para resolver seus gigantescos (a população é em torno de 1,4 bilhão de pessoas) problemas sociais, já que uma das conseqüências diretas foi a geração de emprego e renda naquele país, que mantém um ritmo de crescimento assustador.

Enquanto o Brasil acumulou nos últimos sete anos um crescimento pífio de 2,4% em média ao ano, desde 1978 o Produto Interno Bruto (PIB) da China - hoje em torno de US$ 1,4 trilhão - quadruplicou de valor. Entre 1981 e 2002, a economia cresceu à taxa média de 9,5% ao ano.

Se mantida a atual marcha de expansão, a China deve roubar da Alemanha o terceiro lugar na relação das maiores economias do mundo até 2010 (atualmente ocupa o sexto lugar). Projeções feitas pelo banco americano de investimentos Goldman Sachs, até a metade deste século a China deixará para trás os Estados Unidos, atualmente a potência número um do mundo.

O Brasil, por sua vez, foi recentemente rebaixado da 12.ª para a 15.ª posição na lista das maiores economias do mundo. Foi ultrapassado pela Holanda, Austrália e Índia.

Para Simonelli, a viagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará à China no próximo mês é temerosa no sentido de que, na opinião dele, o governo ainda não “abriu os olhos” para a extensão dos prejuízos já sentidos e dos que ainda poderão ser contabilizados pelo Brasil se não for criada uma política de “proteção” nessas relações comerciais.

“Não há problema nenhum em assistirmos ao crescimento da China. A questão é que isso precisa ocorrer com equilíbrio, com isonomia. O problema é que, com a política utilizada pelos chineses, o Brasil está sendo extremamente prejudicado e perdendo mercado no mundo todo. Acho que devemos fazer acordos com países que não utilizam práticas comerciais ilegais, como a China”, avalia Simonelli.

Para ele, é muito perigoso um país com economia de mercado, que é o caso do Brasil, manter relações comerciais com um país de economia centralizada. Além de serem países completamente distintas por si só, essas duas economias (classificadas pela Organização Mundial do Comércio, que inclui ainda a economia de transição) utilizam práticas muito diferentes. Isso sem falar no “inferno tributário” enfrentado pelos empresários brasileiros.

Simonelli cita um caso cuja prática de dumping (venda de um produto abaixo do preço de custo praticado no mercado) foi comprovada.

“Uma grande fabricante brasileira de lápis estava encontrando no mercado lápis vindos da China com preços absurdamente baixos, e solicitou uma investigação de dumping. Ao final das investigações, foi comprovado que a entrada dos lápis chineses no mercado estava prejudicando financeiramente a empresa brasileira. Isso, infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum no Brasil em relação a produtos vindos da China.”

Simonelli afirma que seu grande medo em relação à visita do presidente Lula é que o Brasil aceite a China como uma economia de mercado. “Existe essa possibilidade, o que é muito preocupante, porque quando se faz isso você abre mão de todas as ferramentas que se tem para equiparar uma economia como a da China com a nossa. Isso seria catastrófico para o Brasil, porque são economias totalmente diferentes. Não podemos perder os legítimos diferenciais na formação de preços que possuímos atualmente para comparar e aplicar medidas anti-dumping”, dispara Simonelli.

Ainda de acordo com ele, um novo acordo bilateral até poderia ser bom para o Brasil se houvesse um fluxo bem regulado de mercadorias. Mas isso não ocorre, já que atualmente a pauta de exportações do Brasil para a China se resume a soja, minério de ferro e alguns outros produtos pouco elaborados.

“Não exportamos nada que agregue, em sua composição, renda, emprego e tudo aquilo que a gente precisa. Os produtos que estão indo para lá não carregam isso na sua essência. Isso é uma grande preocupação, porque hoje a China está extremamente compradora de commodities, tanto que os preços do aço, alumínio, cobre e chumbo explodiram”, diz Simonelli.

O que tem acontecido em muitos ramos, como o de fabricação de automóveis, é que o Brasil exporta as commodities, a China manufatura, deixa os produtos com preços atrativos e toma o lugar do Brasil e de outros países na guerra de mercado. Com um agravante: no caso do Brasil, o mercado interno já não tem mais renda para absorver os produtos fabricados aqui. Com isso, busca-se a saída nas exportações.

“O que deve ser seriamente observado nisso tudo é que o efeito China não está ocorrendo apenas dentro do Brasil, como também no mercado externo. O Brasil está perdendo fatias de mercado lá fora por conta desse problema. Então, precisamos de um marco regulatório de políticas de comércio exterior para tratar com economias como a da China. Uma saída para amenizar esses problemas seria estabelecer cotas de exportação para não faltar matéria-prima no Brasil”, avalia Simonelli.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) enviou um fax a todas as diretorias regionais do Ciesp solicitando que entrem em contato com os empresários de suas áreas de abrangência. O objetivo é que eles enviem informações detalhadas de caráter técnico para que a Fiesp possa desenvolver sugestões de ação ao governo federal. Essas informações vão fazer parte de um documento que a Fiesp vai elaborar e enviar ao governo antes da visita presidencial à China.