A bandeira da luta contra o terrorismo tem sido levantada por várias potências internacionais, como uma justificativa para a adoção de medidas extremas - intervencionistas, até - para protegerem seus interesses. O problema é que as grandes armas do terrorismo são imprevisibilidade, obstinação, fontes de financiamento obscuras e mobilidade. Mas o que é terrorismo, afinal? Carnificina em nome de uma “causa”? Um ultimato diplomático ou empresarial? Uma ameaça de demissão ou coação? A ação de organismos de “inteligência”, minando a estabilidade de nações insubmissas? Parece que depende de quem promove e da visibilidade da ação.
O fato é que, se os atos fossem praticados contra alvos específicos, políticos ou militares, seriam menos bombásticos - A Resistência Francesa fazia isso na Segunda Guerra Mundial, até com toques românticos. Só que, conscientes disso, políticos e militares têm melhores condições de proteção, pagas pelo contribuinte. A alternativa nefasta é atingir inocentes! Seguindo essa lógica, não há diferença entre as bombas insanas de Madri e as bombas “inteligentes” sobre abrigos de civis, do Iraque. Isso tira a legitimidade de qualquer argumento, por mais justo que possa parecer! No mais, a história mostra que, para cada causa justa a ser defendida, há sempre um espertalhão pronto para lucrar com ela, e um neurótico ansioso para extravasar seus instintos mais baixos e selvagens.
Não é tão complicado estabelecer uma relação de causa e efeito. O maior desafio está em identificar a origem do terror - como ele nasce -, para poder combatê-lo de forma objetiva e eficaz, antes que prolifere. Mas como, se ele não tem endereço definido, personalidade física ou jurídica? Além disso, a prática terrorista envolve maciça dose de irracionalidade e alienação; e o aliado de hoje pode ser o terrorista de amanhã, e vice-versa. E o que diferencia opressão diplomática e guerra de conveniência, de sublevação popular e terrorismo? Não são, todos, extremismos? Não usam a mesma arma da doutrinação irracional para tolher a razão?
São tão parecidos assim? Vejamos alguns exemplos de terror explícito: O atual governo dos EUA - nem seu próprio povo agüenta mais! O fanatismo religioso, travestido de fundamentalismo, que está enchendo os bolsos de muito lobo em pele de cordeiro. O capitalismo selvagem, praticado por investidores inescrupulosos e industriais poluidores.
E o Brasil? Só está assistindo de camarote? De forma alguma! Além de sofrer as conseqüências desses fatores globais, também tem seus pânicos caseiros: a eficiência do crime organizado; a ineficiência da polícia e o Poder Judiciário - desorganizados. O endividamento externo. A corrupção. A gestão e o atendimento do INSS. As rodovias brasileiras. O trânsito nas metrópoles. A carga tributária. O desemprego. O vandalismo. A violência no Rio, que antes era “à Bangu”, mas hoje é generalizada. O ensino fundamental. Modismos mutilantes. Vícios, de qualquer espécie, pois tem pouca gente querendo sair e muitos querendo mais adeptos, para sentirem-se “regra”.
É... O terror tem muitas faces e todas baseadas na propaganda enganosa, seguida de violência e dependência, física e psicológica explícita. Servem-se delas para expandir domínios e minar a capacidade de reação. Quem sabe, se a sociedade aprender a combater esses horrores mais visíveis - embora não menos aterrorizantes e contundentes - haverá menos combustível para atitudes terroristas, sejam elas “de estado”, “de mercado” ou de radicais de qualquer espécie. Alienação, ganância e fanatismo, ora andam de mãos dadas, ora vivem trocando golpes baixos. Em ambos os casos, tem muita gente que apregoa democracia e paz, mas lucra com o caos! Vivem da guerra – “santa” ou não -, da doença, do crime... E ganham muito dinheiro com isso!
Infelizmente, o que para a Humanidade é um terror, para seus “comandantes” é “pão e circo”!
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro e professor universitário.