09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Greve de ferroviários há 90 anos


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Em abril de 1914, trabalhadores ferroviários da Noroeste do Brasil impulsionaram uma das mais importantes greves da história da categoria. Não só a greve foi vitoriosa como também o movimento dos trabalhadores contribuiu decisivamente para encampação da estrada de ferro pelo governo federal nos anos seguintes.

Articulada em Araçatuba, em meados de março de 1914, os trabalhadores publicaram um boletim convocando a categoria a lutar pelos salários atrasados há vários meses. Desde que a ferrovia começou a ser construída, em 1905, os trabalhadores eram duramente escorchados, principalmente pela empreiteira responsável pela construção das linhas no território paulista. Os trabalhadores sempre tentaram combater as amargas relações de trabalho, realizando desobediências e abandonando o serviço. Porém, como atitudes individuais, pouco ajudava na luta contra a opressão na ferrovia.

Nos anos 1910, tanto em São Paulo como em Mato Grosso, os operários da Noroeste procuraram organizar várias greves, mas o isolamento das manifestações, reduzidas ao nível dos acampamentos, não fazia força suficiente para conseguir valer suas reivindicações, declinando rapidamente depois de um curto período.

Percebendo que a luta deveria contar com a máxima unidade da categoria, a comissão de greve deslocou-se até Itapura. O plano era agrupar um grande número de operários e pressionar a Companhia Noroeste diretamente nos seus escritórios de administração na cidade de Bauru. Em Itapura, no dia quatro de abril, os trabalhadores reuniram todo o material rodante disponível, visando à paralisação do tráfego e o transporte dos trabalhadores em greve, convocados ao longo da linha no trajeto para Bauru.

Ao chegarem na estação de Bauru, no dia seis, os operários foram surpreendidos com um batalhão da Força Pública, mas não recuaram na mobilização e, assim que chegou um segundo trem com mais grevistas, no período noturno, procedente de Três Lagoas, inviabilizaram a via permanente e os telégrafos, para evitar que o tráfego fosse retomado a todo custo.

No dia seguinte, reivindicaram o pagamento dos salários atrasados, mas os diretores da Companhia Noroeste apresentaram apenas um telegrama “prometendo” o pagamento e ordenando a retomada do tráfego. Tal proposta foi literalmente rechaçada e os trabalhadores permaneceram de braços cruzados, acampados na gare da estação.

No dia 18 de abril, vencido pela resistência operária, a empreiteira não encontrou alternativa: pagou integralmente os salários atrasados.

Thiago Moratelli - RG 30.712.604-3 - Museu Ferroviário Regional de Bauru