Morávamos na quadra 3 da rua Felicíssimo Antônio Pereira, bem defronte para a rua João de Aro. Por ali perambulava um japonês que vivia pedindo alimentos, somente em algumas casas que ele já conhecia bem a generosidade de cada morador. Ressalte-se que se tratava de uma pessoa de conceituada família, mas talvez devido ao seu hábito um tanto exagerado na ingestão de bebida alcoólica (cachaça mesmo), foi excluído do convívio da família. O japonês a que me refiro, às vezes até de madrugada tocava a campainha de nossa residência pedindo “arimentação”, conforme dizia. De nada adiantava dizer-lhe que naquela hora da noite ou da madrugada não mais havia alimentação para lhe dar, pois nem que fosse um simples tomate ou pedaço de pão com manteiga teríamos que dar, devido a sua insistência. Porém, o que nos intrigava era o fato do japonês nunca comer em nossa presença os alimentos que lhes eram dados, pois guardava-os dentro do saco que sempre carregava às costas e nos dizia que iria comer mais tarde. Desconfiávamos até que o japonês acabava jogando no lixo os alimentos que recebia e que não eram poucos, pois ninguém escapava ileso dos seus pedidos. Podíamos até dar algum dinheiro para ele, mas nunca dispensava os alimentos. Várias vezes minha esposa se irritou com o japonês e cara a cara o chamou de inconveniente, devido ao horário qualquer em que comparecia para pedir. Realmente o japonês exterminava o seu humor. Certa manhã, minha esposa dirigiu-se ao antigo Supermercado Santo Antônio, da rua Felicíssimo Antônio Pereira, e teve uma grande surpresa: viu o japonês debaixo da marquise daquele prédio, distribuindo a diversos mendigos, em fila organizada, os alimentos que havia arrecadado na noite anterior. Minha esposa sentiu-se um ser insignificante em relação a atitude do japonês, que se humilhava para pedir alimentos para outros que ele julgava serem ainda mais necessitados. É pura verdade.
Advogado Argemiro Trindade