O passado, para as gerações de portugueses que não viveram o tempo heróico da Revolução dos Cravos, que no dia 25 completou 30 anos, representa muito concretamente a paz que pôs fim a 13 anos de guerras coloniais, o advento da democracia pluralista e um modelo alternativo de desenvolvimento decididamente europeu, que abriu novos horizontes para nossa sociedade em geral e proporcionou amplos benefícios para as classes trabalhadoras. As atuais gerações vêem isso como algo adquirido. Mas não é prudente supor que o seja para sempre.
A esmagadora maioria dos portugueses sente na pele o aumento das desigualdades e a tragédia do desemprego crescente em uma sociedade na qual o horizonte está escurecendo. Para onde estamos olhando? Esta é uma pergunta recorrente em tempo de crise. As respostas não são inocentes nem estão isentas de polêmica. Alguns empresários que viveram durante décadas à sombra da exploração colonial e depois, passadas as dificuldades do processo revolucionário, receberam amplo apoio dos fundos comunitários europeus, preconizam agora a venda de suas empresas à Espanha para manterem seus privilégios. Hipótese indigna!
Por outro lado, e enquanto no mundo as “receitas” neoliberais começam a evidenciar claros sintomas de esgotamento, surgem em Portugal empresários e políticos que se proclamam de uma nova geração - entre 35 e 50 anos - e exigem as mesmas reformas que estiveram em moda nos anos 90: flexibilidade no mercado de trabalho - leia-se, demissões em massa - encolhimento do Estado para engordar os enfraquecidos grupos privados e a destruição do sistema de previdência social. Junto com o surgimento desta nova-velha linha economicista, assistimos a uma ofensiva ideológica de extrema direita, que parte do Centro Democrático Social/Partido Popular (CDS/PP), um dos dois partidos que formam a coalizão governamental, e aponta para despojar a democracia de seu conteúdo social, em aberto conflito com a Constituição de 1976.
Esquecer o 25 de abril, como se tivesse sido uma febre passageira, significaria um grave erro e uma grave imprudência. É certo que o poder político já não é o que era. Hoje está profundamente condicionado pelo poder econômico-financeiro e pelo poder dos meios de comunicação, cada vez mais entrelaçado com o primeiro. O Estado, muito debilitado e submetido a uma corrosão constante pela globalização, deveria se esforçar para se defender e fortalecer, em lugar de alienar setores econômicos estratégicos, como está fazendo ou está por fazer.
Portugal tem de mudar, urgentemente. Devemos ser capazes de criar um novo dinamismo político, o mais inclusivo que for possível. Tenhamos a sabedoria de afastar tudo o que nos divide - que não é muito - e de acentuar a vontade comum de mudança que nos une. Isolemos a extrema direita, nostálgica do passado, ideológica, apoiada por alguns grandes interesses, que ambiciona tomar o poder para desfigurar e “blindar” o regime.
O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal no período 1986-1996.