Não é novidade para ninguém que o mercado automotivo nacional não anda bem das pernas há muito tempo. Por isso, as declarações do novo presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Rogelio Golfarb, sobre a realidade do setor no País poderiam soar como mais uma cantilena que costuma caracterizar muitos discursos políticos.
Um grande engano, pois o dramático cenário exposto por Golfarb está longe de aproximar-se de uma conversa sem objetivos. O executivo da Anfavea sabe que terá uma duríssima missão pela frente em que não faltam desafios a ser superados.
Os principais são os velhos conhecidos problemas do mercado brasileiro: vendas em baixa e a altíssima ociosidade da capacidade produtiva das montadoras - exatos e absurdos 43% de improdutividade.
As conseqüências deste panorama também não são desconhecidas. Queda de competitividade, falta de retorno e contingenciamento de investimentos, perigo de desatualização dos produtos e risco da perda de aportes financeiros para outros países são apenas algumas.
Além disso, o novo líder da Anfavea sustenta que o País também tem desafios internos e externos a superar. Em nível tupiniquim, ele cita a estagnação do emprego, o custo elevado do crédito, a perda de poder aquisitivo do consumidor e o aumento dos custos de insumos, provocados em grande parte pela ociosidade das fábricas.
Já na área externa, conforme Golfarb, o crescimento dos países asiáticos, principalmente a China, Índia e Coréia do Sul, e a incorporação de nações do Leste europeu à União Européia podem se constituir em novas “ameaças” ao já combalido mercado interno diante da possibilidade de se transformarem em novos alvos preferidos de investidores.
Por isso, o executivo defende que o segmento automotivo nacional só terá sustentabilidade real quando o mercado interno atingir a venda de 2 milhões de unidades/ano e uma ocupação mínima de 80% da capacidade produtiva.
Mas, difícil mesmo é fazer tais situações ocorrerem na prática. Golfarb sabe disso e, mesmo não tendo ainda um projeto para discutir com o governo, defende que as políticas para o setor automotivo devem ser duradouras. Em sua avaliação - e ele tem razão - planos emergenciais, como o que reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), tendem a criar “bolhas” de consumo que são efêmeras.
Trocando em miúdos, Golfarb tem em mãos a “receita do bolo” para o desenvolvimento do mercado automotivo nacional. Mas, como toda iguaria que vai ao forno, difícil é fazê-la crescer.