09 de julho de 2026
Auto Mercado

Senna ainda não morreu para fãs

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Exatos dez anos após sua morte trágica nas pistas, tristemente completados hoje, Ayrton Senna ainda é idolatrado por milhares de brasileiros. Para estes, mais que um legado de vitórias e sucesso na carreira, o piloto, um fenômeno do automobilismo mundial e considerado um dos melhores de todos os tempos do esporte, deixou uma enorme herança sentimental.

Prova disso é que Senna ainda conta com fãs ardorosos e, principalmente, saudosos de suas conquistas ao volante dos bólidos da Fórmula 1 e de seu carisma fora dos autódromos. Um deles é a aposentada bauruense Selma Guardiano Swenson, para quem o piloto era considerado um “filho”.

E como toda “mãe-coruja”, não escondia que era superprotetora. “Quando ele ganhava era o melhor. Já se perdia alguém o tinha roubado”, brinca. Além disso, chegava até a fazer um bolo simbólico para comemorar com amigos a data do aniversário de Senna, “festinha” que durou somente até 1995, quase um ano depois de sua morte.

Para ela, as razões que fazem Senna permanecer vivo na memória são as mesmas que a fez torná-la fã. “Mesmo sendo uma pessoa rica e famosa, ele nunca esnobou ninguém ou quis ser mais que os outros. Sua humildade era fora do comum”, ressalta Selma. E, para comprovar isso, a aposentada conta uma história de uma amiga que residia próximo ao local onde hoje funciona a Torcida Ayrton Senna (TAS).

“Na época, o lugar era o escritório do piloto. Um dia ele apareceu por lá e uma vizinha, que sempre lhe entregava correspondências, perguntou ao Senna se ele não podia conhecer umas pessoas que estavam em sua casa e dar autógrafos. Ela disse que ia levá-los até lá, mas ele fez questão de ir até os fãs justificando que a distância era a mesma”, recorda.

Boas lembranças de Senna não faltam na casa de Selma. “Se aparece algo sobre ele nas bancas, corro logo comprar”, diz. Por isso, ela já é dona de uma coleção infindável de fotos, pôsteres, revistas, recortes de jornais e fitas de vídeo.

Mas carinho especial mesmo ela tem por três itens: a folha de uma árvore existente próximo ao túmulo do piloto; um boné azul com o logotipo do extinto banco Nacional com o autógrafo impresso do piloto, que Senna utilizava em entrevistas à imprensa quando corria pela McLaren; e uma fita que narra a vida do esportista.

Esta, aliás, é um dos maiores orgulhos da aposentada, pois ela selecionou todas as cenas presentes na fita. “E, graças a ajuda de um amigo, consegui editá-la. Mas também me preocupei em obter a autorização da família do Senna para fazê-la, o que consegui através de uma assessora da Viviane, a irmã dele, cuja preocupação era saber se era algo com fins comerciais. Como não era, ela disse tudo bem”, relata Selma.

Entretanto, a aposentada só fica triste, e evidencia tal comportamento marejando os olhos, quando fala da morte do piloto, ocorrida no autódromo italiano de Ímola. “Foi algo que demorei muito a aceitar e chegava até a passar mal quando lembrava do fato. Mas agora me sinto melhor, pois não devemos chorar pelas pessoas que se vão. Deus sabe o que faz”, frisa Selma.

Apesar de toda paixão nutrida por Senna, Selma revela carregar até hoje a maior frustração de sua vida. “Não tê-lo conhecido e conversado pessoalmente com ele é algo que me entristece e aperta o coração”, conclui a aposentada.

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'Ele era o Deus do automobilismo'

O bauruense Sulaiman Aziz, 26 anos, é outro exemplo que a veneração a Ayrton Senna continua intacta mesmo após uma década de sua morte no esporte que ele aprendeu a admirar ainda criança. “Comecei acompanhando o Nelson Piquet, mas quando o Senna começou na Toleman, em 1984, foi paixão à primeira vista. Ele era diferente dos outros”, recorda.

Para Aziz, Senna possuía um estilo único de guiar um bólido, que propiciou pilotagens memoráveis. “Essa foi uma das razões que seu nome marcou tanto uma geração de brasileiros”, considera. “Mas seu maior legado foi, além de ser sincero e humano em um meio de relacionamento díficil como o da Fórmula 1, seu talento excepcional, que ninguém jamais terá”, acrescenta.

Segundo o bauruense, tantas qualidades fizeram de Senna um verdadeiro “Deus” do automobilismo mundial. “Ele tinha algo a mais que os outros e era um mestre do esporte. Para mim, suas habilidades só podem ser comparadas a de um Deus, que estava na Terra até 1 de maio de 1994 guiando um carro de Fórmula 1”, enfatiza.

Com tamanha admiração pelo piloto, aceitar sua morte não foi algo natural, muito menos fácil, para o jovem Aziz na época. “1994 foi dolorido e carregado. Era difícil fazer as coisas e fui o único a ir o restante do ano na escola com uma tarja preta”, relembra.

Além disso, como “protesto” pela morte do ídolo, o bauruense tomou uma decisão: nunca mais assistiria uma prova de Fórmula 1, promessa cumprida até hoje, mas quebrada uma única vez. “Eu e um amigo fizemos uma corrente para frente contra o Michael Schumacher. De resto, nunca mais perdi meu tempo para ver correr esses atuais aventureiros sem talento, mas com dinheiro”, critica Aziz.