Na data em que se comemora o Dia Mundial do Trabalho, a Associação dos Lesados por Esforços Repetitivos de Bauru e Região (Alerb) fará o lançamento oficial de 20 mil cartilhas envolvendo o tema segurança no trabalho e doenças profissionais como a lesão por esforços repetitivos (LER) e o distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho (Dort). Segundo a Alerb, na região de Bauru há cerca de 9 mil trabalhadores que sofrem dessas doenças.
De acordo com o diretor da Alerb, Nélio Souza Santos, a partir de segunda-feira as cartilhas e um questionário sobre as condições de trabalho começarão a ser distribuídos por vários sindicatos de trabalhadores junto a empresas dos mais diversos segmentos. O objetivo é ter, dentro de 60 dias, um diagnóstico sobre como é o ambiente de trabalho nessas empresas.
“A idéia é atingir o maior número possível de empresas para levar orientações aos funcionários. As expectativas são de obter o retorno de aproximadamente 20 mil trabalhadores entre Bauru e cidade localizadas num raio de até 150 quilômetros daqui. A cartilha aborda, entre outras coisas, o que são essas doenças (LER e Dort), como se faz o diagnóstico, como deve ser a prevenção, como o trabalhador lesado pode recorrer ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), medidas corretivas etc”, destaca Santos.
De acordo com ele, depois que todos os questionários forem respondidos, a Alerb pretende acionar a Secretaria Municipal de Saúde para elaborar medidas de contenção de riscos ambientais para curto, médio e longo prazos, que posteriormente seriam aplicadas pelas empresas.
“Os empresários precisam se conscientizar de que essas doenças são graves e comprometem a integridade física do trabalhador para o resto de sua vida. Nos casos mais graves, a pessoa lesada não consegue, nunca mais, executar desde movimentos simples do dia-a-dia como pentear os cabelos, até segurar nos braços o seu próprio filho”, alerta Santos.
Segundo ele, dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que na grande região de Bauru (num raio de até 150 quilômetros, aproximadamente) existem cerca de 75 mil trabalhadores. Desse total, 12% - o que significa 9 mil pessoas - sofrem de doenças do trabalho.
O lançamento da cartilha elaborada pela Alerb e para a qual já se prevê a segunda edição, com mais 20 mil exemplares, será realizado no Centro de Referência Estadual do Trabalhador (Cerest) - antigo ambulatório de saúde do trabalhador -, a partir das 9h, com a presença do prefeito Nilson Costa (PTB). Na ocasião, serão distribuídas cartilhas aos presentes.
“Um grande problema nessa área de doenças do trabalho é a subnotificação. Isso porque a maioria das empresas encara a CAT (comunicação de acidente de trabalho) como uma confissão, e não como uma comunicação que está sendo feita ao INSS. Mas não é nada disso. Depois que a CAT é aberta os peritos do INSS têm que ir até o local para fazer o nexo causal, ou seja, verificar o que realmente provocou aquela lesão no trabalhador”, explica Santos.
Segundo ele, uma pesquisa na cidade de São Paulo em 2001 mostrou que apenas 2% dos casos de LER (conjunto de doenças inflamatórias que atingem os tendões nervosos e músculos) e Dort (conjunto de doenças geradas em decorrência do trabalho, porém, não por movimentos repetitivos) diagnosticados são notificados pelas empresas. Outra preocupante realidade apontada pela pesquisa é que 84% dos 1.072 trabalhadores entrevistados não sabiam o que é uma doença profissional.
Criada há nove anos, a Alerb possui 2 mil associados. Segundo o diretor da entidade, a maioria dos trabalhadores que adquirem doenças profissionais atua em indústrias alimentícias, de serviços, telecomunicações, construção civil, informática e em bancos - nesta ordem de ocorrências.
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'Não consigo pegar minha filha no colo'
Silvana de Jesus Vieira, 30 anos, é um dos muitos exemplos típicos de trabalhadores que ficam com graves seqüelas, para o resto da vida, geradas por doenças profissionais. Em função de uma lesão por esforços repetitivos (LER) que atinge seus dois braços e ombros, hoje ela não consegue segurar em seus braços a filha de dez meses. Segundo ela, as dores são terríveis.
“Quando já fazia dois anos que eu trabalhava numa fábrica em Bauru como auxiliar de produção, comecei a sentir dores no punho esquerdo. Procurei o médico da empresa e ele disse que, na minha função, a dor era normal e que eu precisava me adaptar. Depois disso, por várias outra vezes eu o procurei e ele passou a me dar licenças periodicamente. Até que, no ano 2000, eu fiz uma consulta médica fora da empresa e foi diagnosticada a LER, que já tinha tomado conta dos meus dois braços”, conta Silvana.
Depois do diagnóstico, ela já passou por testes em diversas outras funções da empresa, mas em nenhuma a adaptação foi possível. “A empresa não tem interesse em me readaptar, e eu estou afastada do trabalho até hoje. Tem dias em que eu não consigo nem pentear os cabelos ou pendurar roupas no varal, porque as dores são muito fortes. Além disso, tenho que amamentar minha filha deitada e não consigo pegá-la no colo. Essa doença é muito triste”, desabafa.